Lydia Davis, miniaturista


Fotografia de Gregory Boyd

Sobre ela, já houve quem afirmasse que é «um dos gigantes tranquilos no mundo da ficção americana». Onde se lê tranquilos, leia-se secretos. Lydia Davis só publicou um romance (The End of the Story, 1995) e por isso é quase invisível no meio editorial generalista, embora os leitores dos seus dez livros de histórias curtas, muito curtas ou extremamente curtas (aquilo a que se costuma chamar micronarrativa) a coloquem, em termos literários, nos píncaros dos píncaros. Davis (n. 1947) é professora de escrita criativa na Universidade de Albany e destacou-se como tradutora do francês (Proust, Blanchot, Pierre Jean Jouve, Sade, Michel Butor; a lista é longa). Para quem gosta de trivialidades, registe-se ainda que esteve casada, na década de 70, com Paul Auster, de quem tem um filho (Daniel Auster).
Entre os maiores entusiastas da sua obra estão alguns escritores da nova geração, adeptos como ela de formas narrativas experimentais. É o caso de Dave Eggers. Na revista McSweeney’s, o autor de O Que é o Quê (Casa das Letras, 2009), escreveu o seguinte: «Quem conhece a escrita de Lydia recorda provavelmente a primeira vez que a leu. (…) Eu li-a no comboio F, entre a Sexta Avenida e Park Slope – uma longa viagem para um livro que não é assim tão grande – e quando cheguei ao fim senti-me liberto.» No meu caso, mesmo conhecendo boa parte da escrita de Lydia, não recordo exactamente onde a li pela primeira vez. Sei que foi na Internet (talvez no site da McSweeney’s, mas não tenho a certeza), depois de um amigo escritor me ter dito, com aquela convicção que os amigos escritores costumam exibir: «Tu tens que ler Lydia Davis, ouviste? Tens que ler MESMO» (as maiúsculas correspondem a um enfático crescendo). E eu fui ler. Aventurei-me no Google, saltei de página em página e cheguei a uma história com meia dúzia de linhas em que não se passava nada; isto é, em que se passava tudo. A arte da elipse levada ao extremo, um prodígio de understatement e sugestão. Como Eggers, também me senti liberto. E talvez seja para isso que serve a literatura: para nos libertar.
No final de Setembro, foi editado nos EUA The Collected Stories of Lydia Davis (Farrar, Straus and Giroux), um tijolo de 750 páginas com todas as histórias que a escritora foi publicando em revistas e em livros nas últimas três décadas. Enquanto uma tal preciosidade não me chega às mãos, vou lendo e relendo os quatro volumes que a nada linear descoberta de Davis na Internet me fez comprar de rajada (Break it Down, 1986; Almost no Memory, 1997; Samuel Johnson is Indignant, 2001; Varieties of Disturbance, 2007). A cada leitura, a cada releitura, mais me convenço da singularidade, beleza e perfeição formal desta obra que parece erguer-se de um lugar único, um lugar criado pela própria prosa de Davis no momento em que é escrita, lá numa fronteira remota onde as distinções clássicas entre ficção, poesia e pensamento filosófico se esbatem. Reduzidos ao essencial, abdicando de artifícios e ornamentos, sem uma palavra a mais (ou a menos), o que estes textos captam, na maior parte dos casos, são aqueles elementos mais oblíquos da realidade que nós, comuns mortais, muitas vezes intuimos mas somos incapazes de verbalizar. Ou seja, Davis descreve as epifanias como se fossem factos e os factos como se fossem epifanias.
Assim de repente, há várias histórias que me vêm à cabeça. Uma grande parte delas são variações sobre o mais complexo, irónico, absurdo, sublime e paradoxal dos acontecimentos terrenos. A saber, tudo aquilo que se passa (ou pode passar) entre um homem e uma mulher. Mas também me ocorrem pequenas maravilhas como a biografia ultraconcisa de Marie Curie, ou a descrição angustiada e muito kafkiana de um jantar que Franz Kafka prepara para Milena, ou a divertidíssima análise académica das 27 cartas que uma turma de alunos da quarta classe escreve para um dos colegas, internado no hospital devido a uma osteomielite. Geniais, estes textos mais longos. Geniais, as miniaturas.
O que me leva à singela e inevitável pergunta final: não haverá por aí quem queira editar, em português, os livrinhos (ou, pelo menos, uma antologia) de Lydia Davis?

[Texto publicado no n.º 87 da revista Ler]



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