Mäelstrom

1. No meio do mar, um vórtice. É como um buraco negro, um monstro de boca imensa e sôfrega, capaz de devorar navios de quatro mastros. Mesmo quando se inspiram em fenómenos verdadeiros, como o Moskstraumen (nas ilhas Lofoten, Noruega), remoinhos deste calibre só existem na ficção. O mäelstrom que ali se forma, uma conjunção de correntes fortes com marés de grande amplitude, é deveras impressionante mas nada tem a ver com as descrições bíblicas que dele fizeram Jules Verne, em 1870, nas Vinte Mil Léguas Submarinas (já perto do fim, quando o capitão Nemo permite que o Nautilus seja apanhado pela imensa espiral aquática), ou Edgar Alan Poe, muito antes, em 1841, num conto literalmente vertiginoso intitulado Uma Descida ao Mäelstrom.

2. No início da história, Poe coloca o seu narrador no topo de uma falésia altíssima, frente às Lofoten, junto a um velho marinheiro que três anos antes «desceu» ao coração do mäelstrom e sobreviveu para contar. Logo descobrimos que este segundo narrador afinal não é velho, antes viu o cabelo enbranquecer em poucas horas devido ao impacto de uma experiência-limite, como «a nenhum mortal alguma vez foi dado viver». Velejador corajoso, ele costumava pescar com os dois irmãos em águas a que poucos se atreviam, nomeadamente nas proximidades do mäelstrom, a que sempre escapavam por saberem a hora certa em que o dito se formava e ganhava ímpeto. Uma tarde, porém, as circunstâncias propiciam a catástrofe. Um furacão aparecido do nada deixa-os à deriva e ao alcance do remoinho. Um dos irmãos é logo projectado borda fora, enquanto os outros dois assistem, transidos de horror, ao modo como o que resta do seu navio vai percorrendo circularmente as paredes do grande vórtice. A dado momento, acontece uma espécie de suspensão do pânico. Consciente de que não se vai salvar, perdida a esperança, o marinheiro ganha uma súbita lucidez: «Comecei a pensar em como era magnífico morrer desta maneira, (…) diante de uma tão maravilhosa manifestação do poder de Deus». Entrega-se então à beleza assustadora do mäelstrom, quando a lua cheia (aparecendo numa súbita clareira entre as nuvens) ilumina as lisas paredes de água e forma um arco-íris no ar saturado de vapor e espuma, bem no fundo do turbilhão.

3. É esse desprendimento que o salvará. O irmão que restava faz o que se espera de um ser humano normal. Agarra-se ao que pode, incapaz de raciocinar, paralisado de medo, e acaba por ir ao fundo com o navio. O sobrevivente, esse, surpreende-nos com a sua frieza e capacidade de discernir o que se passa à sua volta. Enquanto assiste, resignado, ao modo como as águas giram em torno de um eixo, apercebe-se do diferente comportamento dos objectos apanhados pelo remoinho. Os maiores descem mais depressa, o que é questão de bom senso. Menos óbvia será a dedução decisiva: para objectos de massa igual, os de forma esférica descem mais depressa; os de forma cilíndrica, mais devagar. Ele agarra-se então a um barril e lança-se às águas, o que lhe permite aguentar o tempo suficiente para o mäelstrom perder a força, trazendo-o de novo, exausto mas vivo, até à superfície refeita do mar. O detective Dupin resolvia os casos assim: atento aos detalhes, deduzindo, raciocinando. Que o narrador consiga a mesma coisa, sobretudo em circunstâncias tão extremas, já desafia a imaginação e a verosimilhança. Nas linhas finais, ele admitirá que ninguém acreditou na sua história e que também não espera que o primeiro narrador acredite. Tem razão. Nós, leitores, que assistimos a tudo pelo olhar tíbio desse ouvinte assustado, nunca chegamos a acreditar. Mas a força da história e das suas esmagadoras imagens não é menor por causa disso.

4. É irresistível ver no mäelstrom uma metáfora. O caos que não controlamos e nos devora. Um país em crise, um amor falhado, a ausência de futuro. Queríamos todos perceber o que nos pode salvar. Os barris estão talvez ali, à nossa frente, mas não os vemos, cegos com a perspectiva do abismo.

[Texto publicado no n.º 117 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges