Missão em Washington

Para além de tudo o resto, havia uma missão a cumprir em Washington. Uma missão à antiga: procurar um certo livro, comprá-lo, trazê-lo para Portugal. Aceitei o desafio porque gosto de desafios (mais ainda se envolvem livros) e porque havia uma certa aura analógica em torno daquela demanda. Na era da internet, dos sites que disponibilizam tudo e mais alguma coisa, dos motores de busca poderosíssimos, das aplicações multimédia nos smartphones e tablets, andar de livraria em livraria à procura de um romance em papel, ainda por cima obscuro, esgotado, quase clandestino, pareceu-me uma aventura mais estimulante do que percorrer outro museu da Smithsonian Institution, ou assistir às sempre animadas partidas que os xadrezistas de Dupont Circle, transidos de frio, insistem em jogar mesmo depois do cair da noite.
O livro era um romance mastodôntico (quase 1200 páginas): Women and Men, de Joseph McElroy, «tão esquisito» que «nem a Amazon o vende». Isto garantiu-me o amigo que escreveu um e-mail assim que soube da minha estadia na capital dos EUA. Fui verificar. Efectivamente, junto dos vendedores sugeridos pela maior livraria online do mundo, os preços oscilavam entre os 126 e os 317 dólares. «Enfim, és a terceira pessoa a quem faço o pedido, sem grande esperança: se tropeçares nele em algum alfarrabista a menos de 50 dólares, prometo reembolsar-te ao câmbio actual e ainda acrescentar um café, um bagaço, e um agradecimento histérico», concluía ele. Pela minha parte, prometi apenas dar o meu melhor.
Comecei a procura pela Kramerbooks & Afterwords, na Connecticut Avenue. É uma livraria simpática. Todas as novidades expostas em destaque, mas com critério. Numa sala lateral podem encontrar-se bons livros de poesia e teatro. Na parte de trás, um café: atmosfera vagamente europeia, raparigas loiras barrando doce de morango nos scones, rapazes de sobretudo a que associamos imediatamente a palavra hipster. Quando lhe perguntei por McElroy, a funcionária da caixa principal foi sincera: «Nunca ouvi falar desse autor, mas deixe-me ver se temos algum exemplar.» Não tinham. Depois, antes de atender outro cliente, fez-me um sinal com a cabeça: «Pergunte na caixa da outra sala.» A tal da poesia, do teatro, da literatura underground. Segui o conselho. Atrás da máquina registadora, um negro muito cool, com óculos de massa e uma boina a cobrir a carapinha encanecida, ergueu as sobrancelhas: «O Women and Men, do McElroy? Esse livro é extraordinário.» Fez uma pausa, como se recordasse ali mesmo, no meio da azáfama, as longas noites de leitura até o sol raiar. «Infelizmente, está fora de circulação, o melhor é encomendá-lo na internet ou procurar em alfarrabistas.» Não muito longe, numa esquina da P Street Northwest, há um, disse-me ele. «Experimente.» E eu experimentei.
Na montra, escrito a néon azul: Second Story Books. Livros em segunda mão, com uma segunda história, uma segunda vida. Estantes de madeira clara, altas, labirínticas. Frases nas paredes («There are worse crimes than burning books. One is not reading them», Joseph Brodsky). Ao fundo, num poster, Lenine de boina e laço vermelho, em tamanho real, a 650 dólares. Perguntei mais uma vez por McElroy. Um sorriso cúmplice: «Esse é dos difíceis. Já o tivemos. Agora não temos.» O computador confirmou: o último exemplar foi vendido em Novembro de 2011, por 24 dólares.
Dias depois, andava eu pelo bairro de Georgetown, à procura de uma mesa de voto na Duke Ellington School of the Arts (foi na terça-feira em que os americanos reelegeram Obama), deparei com a Books Used & Rare, uma cave poeirenta a abarrotar de livros antigos. McElroy? O dono da loja abanou a cabeça e encolheu os ombros. «Sabe, o melhor é mesmo procurar na internet.» Eu também encolhi os ombros, finalmente vencido. Sem ser histérico, o agradecimento do meu amigo não deixou de ser um agradecimento. E ele sempre encontrou consolo no facto de um negro muito cool achar que o tão desejado livro é mesmo uma maravilha. Quanto ao resto, digo apenas que há um certo prazer na demanda pela demanda. Assim como assim, eu nem gosto de bagaço.

[Texto publicado no n.º 119 da revista Ler, Dezembro de 2012]



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