Os dias balcânicos

3 de Abril de 2002
Entre Lisboa e Zagreb, o aeroporto de Frankfurt. Passadeiras rolantes intermináveis, multidões que arrastam malas com rodinhas. Em muitos rostos, o pânico apressado de quem teme perder uma ligação. Sigo as setas, entro em elevadores, saio de elevadores, viro aqui, contorno ali, não me perco uma única vez. Ainda assim, chego ao gate B31 mesmo em cima da hora. Já chamam os retardatários do voo para a capital croata. E se tivesse errado uma curva do percurso? Onde estaria agora?
Ao meu lado, junto à janela, um eslavo: olhos claros, bigode, inglês rudimentar, anel com pedra vermelha, relógio dourado. Observa-me. Eu também o observo. Igual desprendimento. É um olhar de soslaio, sem curiosidade suficiente para tentar imaginar de onde vem e o que vai fazer o outro. No meu caso, não quero verdadeiramente saber se ele pertence a uma organização criminosa responsável por tráfico humano ou a um departamento do Ministério do Turismo. Assim que o avião descola, ele adormece e ressona baixinho, enquanto eu leio uma reportagem sobre um violador vampiro, no USA Today que oferecem a bordo.
À minha espera, o José Luís Peixoto. Depois de trocar euros por kunas (a kuna é uma marta, animal cuja pele servia de moeda para pagar impostos na Idade Média), dirigimo-nos para a casa de Vanja, a namorada croata do JLP, amiga comum. Deixo as malas no apartamento pequeno da rua Bleiweisova e saímos para um primeiro passeio. O eléctrico azul deixa-nos no centro. Andamos a pé, sem rumo, durante meia hora. Depois, esperamos a Vanja numa esplanada da Trg Marsala Tita (Praça Marechal Tito). Ela chega sorridente, senta-se, bebe connosco. Como sempre, falamos em inglês. Explica que Zagreb quer dizer «behind the hill», atrás da colina. Assim que pomos a conversa em dia, leva-me à Algoritam, uma das melhores livrarias da cidade. Os meses que passou em Portugal foram suficientes para saber quais são as minhas prioridades.

4 de Abril de 2002
Céu cinzento. Visita à Catedral. Sandes de panado com molho tártaro. Consulta dos e-mails no cibercafé Sublink. Mercado de flores em Splavnica. Na praça principal, debaixo do relógio, um grupo de peruanos tocava a música do filme Titanic em flautas de pã.

5 de Abril de 2002
Sexta-feira. Num rent-a-car, alugamos um Opel Astra verde até segunda, ao meio-dia. Pela auto-estrada são 120 quilómetros até Karlovac, a cidade dos quatro rios, onde a Vanja nasceu. Durante a viagem comemos chocolates e ouvimos, no rádio mal sintonizado, um equivalente croata da música pimba. Na paisagem, marcas da guerra: casas em ruínas, arrasadas por obuses; muros cravados de balas. Ninguém esqueceu a operação Tempestade de 1995, durante a qual o exército croata expulsou a minoria sérvia da Krajina.
Em Karlovac, tomamos a estrada para o parque natural de Plitvice. É ali, perto do maravilhoso emaranhado de lagos e cascatas, que fica a casa da mãe da Vanja. Boa anfitriã, oferece-nos o jantar e, antes disso, aguardente de ameixa. Com típico humor eslavo, deixa a garrafa aberta em cima da mesa da cozinha: «Se ficarem já bêbedos, não tenho de os aturar.» À refeição, comemos cevapi (uma espécie de kebab) e folhados de cogumelos. Sobremesa: um delicioso bolo de creme e chocolate. Ao serão, TV polaca e o filme Carrie, dobrado em croata.

6 de Abril de 2002
Destino: Bósnia. Saímos em direcção à fronteira, com Bihac no horizonte. Na janela do carro, cerejeiras em flor. A seguir à montanha, planície. Para lá da fronteira, começamos a ver os minaretes das mesquitas. Almoço na margem do rio Una. Uma varanda sobre as águas, borrego assado com batatas e vinho esloveno (Quercus). Dragana, a irmã de Vanja, acompanha-nos no passeio e conta a história de como os sérvios de Banja Luka alteraram a composição química do rio, de forma a que este ficasse azul e não verde (a cor dos muçulmanos). Já na estrada, cruzamo-nos com um casamento: 20 carros em fila, os capots cobertos de flores, todos a apitar freneticamente. Na Croácia, onde estão flores estariam bandeiras nacionais.
Em Bihac, há papéis necrológicos pendurados nas árvores: verdes para os muçulmanos; pretos para os católicos. No supermercado, recebemos o troco em convertible marks. Muitos buracos de balas nas paredes, entre placas que lembram os partizans caídos em combate na II Guerra Mundial. Numa rua do centro, duas meninas de dez anos, ou talvez menos, passam de mão dada, a cantar. É uma melodia alegre, saltitante, infantil. Peço à Vanja que me traduza a cantilena. Quando ela traduz, estremeço. O refrão só diz isto: «Viola-me / Mata-me / É tudo a mesma coisa.»

8 de Abril de 2002
Regressámos a Zagreb ontem à noite. Hoje de manhã, antes de entregar o carro, ainda fomos dar umas voltas pela cidade. No cemitério onde fica a campa do muito amado e muito odiado presidente Tudjman, Vanja fala-me da situação política e do peso sufocante do nacionalismo doentio.
Às 19h30, uma experiência daquelas que nunca mais se esquecem. Numa sala apinhada com perto de 2000 pessoas, Cesária Évora dá um concerto. Ritmo creoulo, melancolia na voz rouca da diva descalça (como será que se diz «diva descalça» em croata?). Por um acaso da sorte, oferecem-nos algumas das poucas cadeiras instaladas no palco, sob uma luz violeta. De onde estamos, vemos os músicos de costas, a enorme Cesária abanando as ancas de cá para lá, o maravilhamento de um público que se rendeu e no fim, em apoteose, aplaudiu durante mais de 15 minutos.

9 de Abril de 2002
Dia feio, sombrio. Pombos a planar sobre a praça. Chapéus-de-chuva. Na livraria Algoritam, descubro um poema de Bukowski no livro The Last Night of the Earth. Começa assim: «it / takes / a lot of // desperation // dissatisfaction // and / disillusion // to / write // a / few / good / poems.» Não me sinto desesperado, nem insatisfeito, nem desiludido. Mas também não escrevo poemas. Olho pela janela ampla do Kavana Dubrovnik. O empregado, um careca rezingão, traz-me um café duplo quando lhe pedi apenas um trivial kava espresso, uma bica normal. Quando desfaço o equívoco, fica furioso e murmura palavras cheias de sílabas que parecem arestas (também devem ferir pelo seu significado, suspeito).

10 de Abril de 2002
Continua a chuva. Vou aos museus. Deambulo pela cidade. Nos bairros do centro, paira ainda a atmosfera do império austro-húngaro. Estou sempre à espera de me cruzar com senhores de jaqueta e bigode torcido, acompanhados por senhoras de sombrinha com o cãozinho pela trela, casais de braço dado, caminhando airosos ao som de valsas de Strauss. As praças são largas; os jardins, geométricos (cercados de plátanos). É uma espécie de Viena com pátina, decadente mas sedutora. Aqui não se detectam sinais da guerra, mas há fachadas enegrecidas, paredes periclitantes. A pobreza existe, só que discreta. Ontem apercebi-me de que ainda não vi um único arrumador de automóveis.

11 de Abril de 2002
Viagem de um só dia à Eslovénia. Algumas horas de comboio até Ljubljana, uma capital-miniatura, belíssima. Faço a ronda das livrarias. Numa delas, com os tectos muito altos, compro uma edição eslovena de Alice no País das Maravilhas, a pensar na colecção lewiscarrolliana de uma amiga. No cimo de um monte, o castelo é omnipresente e tem qualquer coisa que me faz pensar em Kafka. Bebo um chá quente no Café Nostalgia (cheio de ícones da antiga Jugoslávia). Compro seis CDs de música clássica a baixo preço e fico meia hora a comer amêndoas junto à ponte tripla. Regressamos de noite. No comboio escrevo um poema para a Vanja. Começa assim: «Dentro da escuridão / há uma paisagem / submersa: árvores, / ossos, rios, pedras, / a memória dos mortos, / o fogo gasto de uma estrela».

12 de Abril de 2002
Volto à Algoritam, descubro a Mladost. É estranho percorrer as bancadas cheias de livros escritos numa língua que desconheço. Volto ao Sublink e passo por outros cibercafés: o Charlie’s, o @vip. Volto ao Kavana Dubrovnik, ao Mala Kavana. Ainda não passaram dez dias sobre a minha chegada a Zagreb e já tenho hábitos, rotinas, lugares a que me sabe bem regressar. Num dos cafés, desafio outra vez Bukowski: «Eu sei que o poema / se faz de ar e fumo, / arquitectura abstracta, / gestos cegos de tão lúcidos.» É um esboço que continua por mais uma dezena de versos. Hesito: amarroto o papel ou guardo-o? [Quase uma década mais tarde, a hesitação mantém-se.]

13 de Abril de 2002
Amanhã, voo para Lisboa. A viagem está a chegar ao fim. «Não te podes ir embora sem subir ao Sljeme», diz-me a Vanja. O Sljeme é a montanha que fica junto a Zagreb, a tal «colina» atrás da qual a cidade se esconde. O bilhete do teleférico custa 15 kunas. Subimos devagar, suspensos, encosta acima. Lá no topo, fotografias que provarão, um dia, que estivemos aqui. Aqui em Zagreb. Aqui em 2002. Supostamente, a vista da cidade é ampla, bela, de tirar a respiração. Mas hoje há nevoeiro. Um nevoeiro denso, placa branca a meia altura da montanha. Zagreb está lá em baixo, escondida, invisível, como se já tivesse dito adeus muito baixinho, como quem se esconde no último minuto porque não gosta de despedidas.

[Diário de viagem publicado na última página da edição de hoje do Jornal de Letras]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges