Os e-books não mordem

Éramos seis naquela mesa redonda. Editores, romancistas, críticos literários, consultores. Tema da conversa: «Vem aí o e-book… Deito fora os meus livros?» Como se o facto de podermos trazer centenas de romances num aparelho fininho implicasse necessariamente uma guia de marcha para as estantes lá de casa. Quando me deram a palavra, pousei no colo os vários gadgets pelos quais distribuo as minhas leituras digitais (Kindle, iPad e iPhone), o que me fez sentir uma espécie de José Magalhães nos seus tempos de guru da pré-história da internet em Portugal (lembram-se?), e sublinhei uma evidência: o e-book não vai assassinar o livro em papel (pelo menos nas próximas décadas), nem substituir a experiência da leitura tradicional. Mas os dois suportes podem perfeitamente coexistir, com as respectivas vantagens e limitações. Pela minha parte, a adaptação foi imediata e leio agora e-books naturalmente, como se eles sempre tivessem existido. Uma das vantagens, para além de os poder descarregar no próprio instante em que estão a ser lançados nos EUA ou no Reino Unido, é o acesso instantâneo ao dicionário de inglês, ao Google e à Wikipedia. Basta carregar na palavra que nos suscita dúvidas e a definição correspondente aparece na base do ecrã (ou o link para os sites referidos). E uma pessoa habitua-se tão depressa que já me aconteceu, ao ler livros em papel, sentir o impulso de carregar numa palavra que desconheço ou no nome de alguém que gostaria de pesquisar.
No debate, havia quem estivesse disponível para experimentar, mas também quem jurasse a pés juntos que desta água não há-de beber. O discurso típico de quem só vê na emergência do digital os seus perigos (que existem, entre eles o da rápida obsolescência tecnológica) mas nenhuma das suas virtudes. A questão, porém, é que os e-books não são uma fantasia futurista. Eles são a realidade de hoje. Ou, para os mais renitentes, de amanhã. Foi aliás muito curiosa a resposta que obtive à pergunta: «Mas algum de vocês já leu um e-book?» Pois. Nenhum dos outros cinco participantes no debate tinha alguma vez lido um e-book. Ou seja, estiveram duas horas a falar de uma coisa que nunca experimentaram. Daqui a um ano ou dois, acreditem, a proporção vai inverter-se. Recordam-se da resistência inicial aos telemóveis? Alguns dos que se riam da hipótese de vir a andar com um aparelhómetro colado ao ouvido, que horror, agora não prescindem dos modelos de última geração, com internet e tudo. Mais: daqui a vinte anos o título do debate («Vem aí o e-book… Deito fora os meus livros?») vai parecer tão anacrónico como um debate que há vinte anos tivesse discutido «Vem aí o e-mail… Deito fora os meus postais?».
Parte do preconceito contra o livro digital nasce do facto de muita gente pensar que este é um mero clone dos livros em papel. Nada mais errado. Embora ainda só estejamos no início, já começam a aparecer livros-aplicação (a pensar nos tablets) que levam a literatura digital para outros patamares. Veja-se o caso da versão para iPad do poema The Waste Land, de T. S. Eliot, nascida da parceria entre uma editora de vanguarda tecnológica (a Touch Press) e a prestigiadíssima Faber & Faber (detentora dos direitos). O resultado é avassalador. Além dos versos, com as anotações de Eliot integradas, podemos ver em sincronia a interpretação do poema pela actriz Fiona Shaw, registos áudio de outras leituras (Ted Hughes, Viggo Mortensen, o próprio Eliot), vídeos com comentários de várias personalidades (de Jeanette Winterson a Seamus Heaney) e imagens da versão original com notas manuscritas de Ezra Pound. No momento em que escrevo, acabo de comprar outra aplicação igualmente espantosa: a «edição amplificada» do On the Road, de Jack Kerouac (Penguin), com mapas das suas viagens pelos EUA, biografias dos escritores da Beat Generation, documentos de arquivo, comparações entre rascunhos e versão definitiva, capas das edições internacionais (incluindo a da Ulisseia), etc. Já imaginaram o que se pode fazer com o Ulisses, com a Divina Comédia, com os livros do Pynchon, com os do Georges Perec? As possibilidades são infinitas. E eu mal vejo a hora de as poder desfrutar.

[Texto publicado no n.º 104 da revista Ler]



Comentários

4 Responses to “Os e-books não mordem”

  1. Fabio on Setembro 30th, 2011 12:48

    Caro José Mário, de fato o ebook veio para ficar – talvez não esse que conhecemos hoje, mas a ideia já é uma realidade hoje. Também concordo que não substitui nem substituirá o livro “analógico” (acho que foi você quem sacou essa). Mas é um tremendo instrumento para quem, como eu, disponho de um espaço que tem que ser dividido entre livros e filhos (bons leitores) e esposa… E podemos imaginar que, há alguns séculos, o pessoal discutia que o rolo jamais seria substituído pelo livro que conhecemos hoje…

  2. Olinda on Setembro 30th, 2011 13:00

    Maravilhoso mundo novo!

    Penso que não é só o e-book, e tudo o que lhe está associado, que nos facilita a vida. Hoje em dia é quase impensável escrever-se um texto sem o recurso às ferramentas da Net, pois em caso de dúvida temos logo à nossa disposição informação que não nos deixará cair em erros…ou imprecisões. O importante é saber seleccionar e interpretar o que o vasto mundo global produz…

  3. Mário on Setembro 30th, 2011 16:36

    Realmente, fiquei com a água na boca. Será que podia dizer-me uma coisa: qualquer gadget possui essas funcionalidades? Sobretudo, o dicionário dava-me imenso jeito.

  4. «Os e-books não mordem» « Ler ebooks on Setembro 30th, 2011 18:44

    […] o diz é o autor e crítico literário José Mário Silva, num excelente texto publicado no seu Bibliotecário de Babel. PartilharPartilharTwitterFacebookEmailStumbleUponDiggGostar disto:GostoBe the first to like this […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges