Professor Nabokov

E se de repente me colocassem à frente uma máquina do tempo sofisticadíssima, capaz de transportar num ápice o viajante, eu, para o centro de um qualquer acontecimento histórico à escolha? Que indicações dar ao taxista da quarta dimensão? Eis um exercício especulativo dos mais inúteis, tendo em conta que a probabilidade de uma tal geringonça vir um dia a existir, assim disponível para o cidadão comum, é dez elevado a muitos zeros inferior à probabilidade de ganhar cinco vezes seguidas o totoloto.
De qualquer das formas, não vá o diabo tecê-las, ando com uma listinha no bolso. Por questões de feitio, exclui à partida as grandes batalhas (Aljubarrota, Lepanto, Waterloo, o Dia D) e aqueles outros momentos que mudaram de facto o rumo da História (tratados, concílios, armistícios, revoluções). O que me interessa é a escala humana, o feito individual. Seguir Sócrates pelas ruas de Atenas, entrar no atelier de Piranesi, ver a maçã de Newton a cair (se é que houve maçã) e Beethoven às voltas com o opus 132. Ou então, coisas mais simples e públicas: assistir à escandalosa estreia da Sagração da Primavera, de Stravinsky, em Paris, 1913. Ou ainda mais modestas: partilhar, num anfiteatro repleto de alunos, as lições de um grande professor. A Física explicada por Richard Feynman. Ou a grande literatura sob a lupa de Vladimir Nabokov.

Neste último caso, à falta de tecnologia que me transporte meio século para trás, para o passado, posso sempre valer-me das Aulas de Literatura (Relógio d’Água, 2004), um volume que reúne as palestras sobre Ficção Europeia dadas pelo autor de Pnin na Universidade de Cornell, entre 1953 e 1958 (o ano de Lolita, cujo enorme sucesso lhe deu estabilidade económica, permitindo que se afastasse definitivamente do ensino académico). Na sua cadeira, Nabokov propunha-se «analisar com amor, em pormenor dedicado e vagaroso, algumas obras-primas europeias». A saber: Mansfield Park, de Jane Austen; Bleak House, de Charles Dickens; Madame Bovary, de Gustave Flaubert; O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson; Do Lado de Swann, de Marcel Proust; A Metamorfose, de Franz Kafka; e Ulisses, de James Joyce.
Os textos que Fredson Bowers editou, a partir das intrincadas notas de Nabokov (quase todas manuscritas), não correspondem a um trabalho literário final, devidamente polido. Ao contrário das aulas sobre Almas Mortas e O Capote, que foram integradas no ensaio dedicado ao «mais estranho poeta prosador que jamais produziu a Rússia» (Nikolai Gógol, Assírio & Alvim, 2007), estas «prosas faladas» aparecem-nos em estado bruto, tal como eram transmitidas oralmente aos seus alunos, mas nem por isso deixam de ser um testemunho da inteligência analítica e subtileza argumentativa de Nabokov. Fiel às suas premissas enquanto autor, não lhe interessa discutir o que está «à volta» dos livros (generalizações e enquadramentos sociopolíticos) mas apenas o «coração vivo do assunto», a «essência» de uma obra, que para ele se resume a dois aspectos: o estilo e a estrutura. Recorrendo ao close reading, Nabokov ilumina os alicerces da escrita romanesca alheia com a sabedoria e intuição de quem conhece os segredos do ofício, procurando a «tessitura interior», a verdade última que se esconde nos pequenos detalhes. Para compreender Jane Austen, diz-nos, é preciso visualizar as mobílias do quarto de Fanny Price, protagonista de Mansfield Park. Em Ulisses, convém traçar no mapa de Dublin as deambulações de Leopold Bloom e Stephen Dedalus. O estudo do texto de Kafka passa por diagramas (a planta do apartamento dos Samsa) e por desenhos entomologicamente correctos do protagonista transformado em insecto.
Nabokov começava cada semestre com um aviso: «Não falem, não fumem, não façam tricot, não leiam o jornal, não durmam e, por amor de Deus, tirem apontamentos.» A julgar pelas evocações de antigos alunos que John Updike cita no prefácio, ninguém dormia nas aulas (muito pelo contrário). A própria mulher de Updike, que chegou a assistir às palestras a arder de febre, recorda: «Sentia que ele me podia ensinar a ler. Acreditava que ele me poderia dar algo que duraria toda uma vida – e deu.»

[Texto publicado no n.º 88 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges