São Pedro do Sul

Eu devia ter uns oito ou nove anos. Era Verão e os meus avós paternos levavam-me com eles para as termas, no Norte. Pelo caminho, lembro-me perfeitamente de ir no banco de trás do Peugeot 204, tomando nota dos automóveis estrangeiros que nos ultrapassavam. Todos os miúdos têm as suas manias e a minha era contar matrículas. Durante a viagem, fazia relatórios de dez em dez minutos: «Vinte e dois franceses, quinze espanhóis, onze alemães, oito holandeses, cinco luxemburgueses, quatro italianos, dois ingleses, um suíço.» Era no tempo em que a padronização comunitária ainda não tinha uniformizado as cores das placas e os porta-bagagens ostentavam autocolantes ovais com as iniciais dos países (levei algum tempo a associar a Suíça ao misterioso CH, da designação latina Confoederatio Helvetica). Quando entrávamos em São Pedro do Sul, ao fim de longas horas por estradas nacionais (ainda estava para chegar a fúria do asfalto cavaquista), eu anunciava orgulhoso o meu balanço final: «Setenta e nove franceses, trinta e quatro espanhóis, vinte alemães, quinze holandeses, oito luxemburgueses, seis italianos, três ingleses, um suíço.» O que mais me intrigava era a superioridade dos franceses face aos espanhóis, geograficamente mais próximos, até que a minha avó me explicou que a maioria daqueles franceses eram afinal portugueses como eu, só que emigrantes em Paris ou Toulouse, de regresso à terra nas suas bagnoles de alta cilindrada.
Na imagem que guardo do Hotel Vouga, havia um toldo azul sobre a porta de entrada, uma cadeira de verga cá fora, no passeio estreito (onde me sentava por vezes a olhar os carros que passavam, contendo-me para não dar início a outra obsessiva contabilidade de matrículas), um muro baixo com vasos de loiça branca, um portão de ferro com pontas afiadas, um telheiro escondido por uma buganvília. Ficávamos sempre neste hotel e creio que sempre no mesmo quarto. Fecho os olhos e vejo a minha avó estendida na cama, a dormir a sesta. As tardes longas. O silêncio. Eu ia buscar os meus livros e durante umas horas perdia-me na ilha do tesouro de Stevenson, nas aventuras dos heróis de Júlio Verne, nas corridas imparáveis do Michel Vaillant, nas histórias divertidíssimas da dupla Astérix/Obélix (cuja piada só apreciei devidamente mais tarde). Outras vezes, acompanhava o meu avô ao café, no centro, para lá da ponte. O tempo esticava muito, mas eu nunca me aborrecia. Gostava especialmente dos passeios junto ao rio, de atirar pedrinhas à água lisa, de comer as sandes de queijo e marmelada que a minha avó preparava à mesa do pequeno-almoço e trazia na mala de mão, embrulhadas em guardanapos de papel.
Os restantes hóspedes deviam andar pelos cinquenta, sessenta anos, e pareciam-me muito velhos. Ao serão, os meus avós socializavam um pouco com eles, à espera, entre outras coisas, de ouvir os louvores que me eram dirigidos, enquanto menino ajuizado e paciente, que sabia esperar, não fazia barulho a comer no restaurante do hotel, não corria pelos corredores, nem mostrava repugnância quando as senhoras muito maquilhadas o enchiam de beijos e festinhas no cabelo. Havia um senhor que sabia truques com palitos aos saltos debaixo de um guardanapo e um outro que era especialista em adivinhas. «Vais a conduzir um carro, como fazes para virar?» Se eu respondesse «uso o volante», ele dizia «não, abres a janela» (para «vir ar»). Se eu respondesse «abro a janela», ele dizia «não, usas o volante» (para «virar»).
Ignoro porquê, mas sou incapaz de recordar o edifício onde se faziam os tratamentos. Recordo-me é do jardim que tinha no centro uma taça circular – cheia de água borbulhante e vapores – de que eu me aproximava a medo. Penso nela e o cheiro fortíssimo, como de enxofre, regressa para me atordoar, e atrás dele vem a nitidez das noites cálidas, naqueles verões dos meus oito, nove anos. Entretanto, o meu avô Mário morreu. Entretanto, a minha avó Lucinda morreu. Nunca mais voltei a São Pedro do Sul. Há dias, fui procurar os livros do Astérix e do Michel Vaillant. Não os encontrei. No seu lugar, quase esvaecidas, estavam estas memórias.

[Texto publicado no n.º 116 da revista Ler]



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