Uma droga benigna

Na fotografia, eu e o meu irmão estamos encostados a uma grande janela, olhando directamente para a câmara, com um livro aberto nas mãos (consigo perceber que o meu é um clássico qualquer da literatura inglesa, em edição de bolso; o do Manel um exemplar da colecção ‘Ficções’, da Estampa; mas é impossível discernir os respectivos títulos e autores). Lembro-me bem das circunstâncias em que a foto se fez. Num corredor do Conservatório Nacional de Música, minutos antes de uma aula a que o meu irmão tinha de assistir, o João Francisco Vilhena a dizer «isso, isso, encostem-se ao vidro e agora olhem para mim». Aconteceu em 1996, há quase década e meia. Examino a imagem e de repente aquele rapaz de 24 anos que eu fui está a olhar-me nos olhos, lá do momento parado em que o João Francisco o aprisionou.
É sempre cruel, este exercício. Porque eu sei muito mais do que ele. Eu sei tudo o que se passou de lá para cá: as voltas da vida, as grandes catástrofes e prodígios, os descaminhos do mundo. Ele ficou em 1996, segurando uma edição barata de um clássico qualquer da literatura inglesa, exibindo um meio sorriso junto à janela cheia de luz. Dirão que quinze anos não é assim tanto tempo. Mas aquele José Mário parece-me agora infinitamente distante. Aquele José Mário estava casado com outra mulher, ainda não tinha filhos, vivia em Santo António da Caparica, num quinto andar por onde deambulava uma gatinha persa (foi antes da alergia o afastar dos felinos) e de onde se via uma nesga de oceano, conduzia um Renault 5 GTL de cor cinza, assistia aos jogos do Figo no Barcelona enquanto passava camisas a ferro nas tardes de domingo, e, curiosamente, lia muito menos do que lê hoje. Curiosamente, repito, porque a fotografia no Conservatório serviu para ilustrar uma reportagem longa de Ana Margarida de Carvalho sobre «grandes leitores», publicada na Ler (também a revista era então muito diferente: no formato, na espessura, no grafismo, no papel).
Em 1996, eu lia bastante mas não fazia da leitura a minha actividade principal, como faço hoje. Naquela época, talvez admitisse vir a ser um dia o leitor que sou agora. Ao falar enquanto «grande leitor», era do José Mário de 2011, um José Mário futuro, finalmente bafejado pela sorte (ser pago para devorar livros, em vez de escrever sobre tudo e mais alguma coisa, em suplementos do Diário de Notícias que já ninguém recorda), era do José Mário actual que o José Mário de 1996 falava. Por isso, as citações que leio no texto de Ana Margarida de Carvalho não perderam validade. Exemplo: «Eu não tenho essa visão sacralizada da leitura. Leio sempre que me apetece, nem que seja em pé na paragem de autocarro. E Beckett não me sabe pior lá por estar debaixo de chuva.» Ou ainda: «A leitura, para mim, é talvez a droga mais saudável que existe. Traz-nos euforia, cria-nos dependência, mas o único risco que corremos é ampliar a nossa visão do mundo. E isso, que eu saiba, não tem contra-indicações.» Passados quinze anos, continuo a achar que a leitura tem o efeito de uma droga (felizmente benigna), mas encaro a frase com a bonomia de um velho consumidor de ópio diante do súbito entusiasmo de quem começou ontem a fumar charros.
Diga-se que há muitos aspectos do José Mário de 1996 que permanecem no José Mário de 2011. No núcleo central das preferências literárias, estavam quatro nomes (Jorge Luis Borges, Italo Calvino, Herberto Helder e Georges Perec) que nunca abandonaram o panteão particular, antes o partilham com outros autores (como Roberto Bolaño ou W. G. Sebald) que só vim a descobrir mais tarde. A bem dizer, a principal diferença entre os dois eus não é física, nem psicológica, nem sequer intelectual. A principal diferença está nas muitas centenas (ou talvez milhares) de livros que o segundo leu entretanto, cumprindo em parte o vago desejo do primeiro (habitar um dia a secção menos aleatória da Biblioteca de Babel). Bem vistas as coisas, o primeiro é um fragmento da memória do segundo. E o segundo é o sonho cumprido do primeiro. Um e outro coexistiam já na fotografia daquele número antigo da Ler. E, como Borges, não sei qual dos dois escreveu esta página.

[Texto publicado no n.º 100 da revista Ler]



Comentários

2 Responses to “Uma droga benigna”

  1. Gerana Damulakis on Maio 1st, 2011 20:47

    Adorei o texto.

  2. RC on Maio 5th, 2011 13:18

    «A leitura, para mim, é talvez a droga mais saudável que existe.»
    Zé Mário, vais por certo desculpar-me, mas… e o sexo?
    Dá prazer, vicia, até faz bem à saúde e, se praticado com os cuidados necessários, não tem contra indicações.
    Ehehe, estou só a meter-me contigo.
    Já tinha lido o texto e gostei muito.
    Abraço

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges