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Uma entrevista com E. L.

Foi em Março de 1998, poucas semanas antes da abertura da Expo’98. Num domingo à tarde, sentei-me à conversa com Eduardo Lourenço, então prestes a fazer 75 anos. Pretexto: uma entrevista de fundo para o suplemento DNA, do Diário de Notícias. Lembro-me perfeitamente do átrio do hotel lisboeta, com cadeirões confortáveis, à média luz. Em surdina, chegava da recepção um relato de futebol. O professor recebeu-me com um aperto de mão firme, rosto ameno, gestos cordiais. Vestia casaco castanho, calças cinzentas, gravata malva. Antes de nos sentarmos a uma mesa do canto, enquanto eu testava o gravador e a microcassete de fita castanha, apoquentou-se. Apalpando os bolsos, admitiu não saber dos óculos: «Acho que os deixei no Vá-Vá» (o café da Avenida de Roma onde passara parte da manhã). Ao aperceber-se da agitação, um empregado aproximou-se, lembrando que vira «o senhor professor» a subir para o quarto com os óculos postos. Eduardo Lourenço pediu desculpa, dirigiu-se rapidamente para o elevador e demorou um quarto de hora a voltar ao átrio. Já a luz vermelha do gravador se acendera, quando rematou: «Uma parvoíce, isto dos óculos, na verdade não precisava deles para falar, pois não?»
A bonomia do primeiro contacto prolongou-se pelas quatro horas seguintes. Quatro horas de discurso contínuo, de elocubrações e memórias, de inteligência e lucidez. O mais espantoso de tudo foi ver como Eduardo Lourenço, nunca se assumindo como filósofo (apenas como «pensador»), exercia à minha frente a arte de reflectir. As suas frases tinham uma frescura inesperada, como se estivessem a ser ditas pela primeira vez (e algumas estariam mesmo). Entre ideias mais fortes, havia por vezes longas pausas, como se os nexos entre elas requeressem o tempo de serem devidamente ponderados. Coisa extraordinária, esta: ouvir um pensador no acto de pensar. Aqui e ali, um sorriso sublinhava as palavras que se arredondavam em soundbytes. Por exemplo: «Portugal não sairá nunca de si.» Ou: «Este é um país pequeno mas que tem um imaginário hiperbólico.» Ou ainda: «A Arte, se virmos bem, acaba sendo a verdadeira Internet de Deus. É o lugar onde ao mesmo tempo navegamos e somos navegados.»
Lourenço falou de Camões e Pessoa, de Husserl e Kierkegaard, as suas grandes referências literárias e filosóficas. Lamentou não ter sido médico ou historiador, em vez de transportar em si a consciência de um trabalho interminável: «A minha vida é não produzir sentido. É uma vontade de dar essa ideia de sentido, algo de que me aproximo como de um objecto quase idolátrico. Era Hegel que dizia ter sido condenado por Deus a ser filósofo. Condenado porquê? Porque é uma tarefa infinita.» E lembrou a infância, «esse espaço dentro do qual se coloca algo de parecido com a felicidade», os primeiros anos na aldeia beirã onde nasceu, S. Pedro de Rio Seco, e que hoje em nada se assemelha ao que era na década de 20. «Entre as diversas temporalidades, a mais difícil de pensar é a do nosso próprio tempo, porque de algum modo é ele que nos pensa a nós», resumiu, vagamente comovido.
Houve também espaço para pequenas surpresas. A confessada admiração por Corto Maltese, «que andou pelo mundo fora em viagem»; admiração com um toque de inveja («infelizmente sou pouco aventureiro»). Ou o entusiasmo ao evocar o «erotismo platonizante» de Ingrid Bergman: «Além da beleza inacreditável, há nela uma espécie de inocência, uma espécie de aura, qualquer coisa que se assemelha a uma aparição.» O cinema, de resto, tem uma carga simbólica tão poderosa que Lourenço lhe atribui a origem do domínio cultural americano: «Foi no grande ecrã que os americanos criaram a América. Atribuíram-se um imaginário e um passado que não tinham.»
No fim das quatro horas de conversa, enquanto agradecia a generosidade do tempo dispensado, perguntei-me: «Caramba, como é que um homem de quase 75 anos continua tão vivo, tão lúcido, tão capaz de pensar o mundo à sua volta?» Catorze anos depois, a pergunta mantém-se: «Caramba, como é que um homem de quase 89 anos continua tão vivo, tão lúcido, tão capaz de pensar o mundo à sua volta?» A resposta também se mantém: não sei. Não sei mesmo. Mas assistir à persistência de tamanho brilho intelectual é um consolo para quem vê diariamente a estupidez a ganhar terreno em todo o lado.

[Texto publicado no número de 2012 da revista Correntes d'Escritas]



Comentários

One Response to “Uma entrevista com E. L.”

  1. MM on Fevereiro 24th, 2012 9:23

    que texto magnífico, josé mário
    MM

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