Uma volta pela cidade

O rapaz que vende figos. Estava encostado à parede, na esquina da Praça de Londres com a Av. de Paris. Cabelos longos, barba rala, pernas bambas, roupa imunda, o olhar baço, as mãos a tremer. Ao passar por ele, as pessoas viravam a cara, seguiam em frente, diziam «coitado, mais um farrapo humano». Eu nunca o tinha visto por ali. À distância, do outro lado da rua, pus-me a observar. Vi as manchas de sujidade no casaco, os sapatos com as solas amarradas por cordéis, o saco de plástico cheio de beatas, a ligadura amarela (de pus?) no tornozelo esquerdo. Vi o rosto destruído sabe-se lá porque infernos, doses maradas, repentinas saudades de casa, insónias, crises de abstinência. Não vi nada de novo: só o cenário da degradação absoluta, só um fantasma igual a todos os outros fantasmas que se cruzam connosco na rua ou nos pedem uma moeda quando estacionamos o carro, um daqueles fantasmas que aprendemos a ignorar. Mas vi outra coisa: junto aos seus pés, um cesto. Um daqueles cestos como já não se encontram nas cidades. Um cesto de vime, com figos lá dentro. Figos pretos, maduros, deitados num tapete de folhas muito verdes. Em papel pardo, escrito com letra infantil, o preço: 50$00/kg. Houve qualquer coisa que me comoveu naquela figura cambaleante, naquele rapaz que tentava, apesar de tudo, oferecer algo em troca da piedade alheia. Aproximei-me, ainda a pensar como é que ele pesaria os figos sem balança. Mas não cheguei a pedir nada. À minha frente, o rapaz adormecera, em pé. Baixei-me e encostei o cesto à sua perna direita, para que sentisse o toque, para que não se deixasse roubar. Os figos cheiravam bem. Virei costas e afastei-me.

Diálogo escutado numa rua da Baixa. «Este ano vai ser diferente, garanto-te»; «Diferente porquê?»; «Vou pôr ordem na minha vida, vou deixar-me de loucuras, vou emagrecer, vou rectificar as asneiras que fiz no passado»; «Pois, pois, isso é o que toda a gente diz e depois ninguém cumpre. O que é que fizeste de concreto?»; «Olha, comecei por mudar de casa»; «Não me parece mal, não senhor. E em que zona da cidade fica a casinha?»; «Aqui em cima, no Bairro Alto»; «Porreiro. Mas vê lá se não é ao pé dos bares…»; «Já te disse que vou deixar-me de loucuras, não te preocupes»; «’Tá bem, estou para ver. Qual é a rua?»; «É a rua da Emenda»; «A rua da Emenda?» «Sim, a rua da Emenda. Porquê?» «Tem graça»; «O que é que tem graça?»; «Rua da Emenda, não percebes? Queres corrigir a tua vida e vais morar para a rua da Emenda»; «Hmmm, não tinha pensado nisso. Se calhar é um sinal…»; «Se calhar é»; «Ainda bem que me chamaste a atenção. Rua da Emenda. É curioso, sim senhor. Não tinha pensado nisso».

Naftalina. O homem entrou na carruagem do metro e sentou-se à minha frente. Talvez 60 anos, bom porte, óculos de aros finos, mãos delicadas. No rosto, a expressão feliz de quem se exibe ao mundo. Um contentamento secreto, uma espécie de júbilo atirado à cara dos outros. Olhei melhor, tentando perceber a razão daquele sorriso. Se calhar este é o dia mais feliz da sua vida, por motivos que nunca conhecerei: o casamento de um filho, o nascimento de um neto, outra coisa qualquer. Ou então acabou de descobrir o amor verdadeiro, passados tantos anos, e vai agora ao encontro da amante, sentindo que renasce só por estar ao pé dela. Ou então… Foi nessa altura que senti o cheiro a naftalina, muito forte. Olhei outra vez para o homem e para a sua roupa. Com as mãos, ele endireitava, orgulhoso, as lapelas do sobretudo de couro preto. Um sobretudo com estilo e bom corte, antigo. Era dali que vinha o cheiro, tive a certeza. Mas o homem, talvez por habituação, já nem o sentia. Continuava feliz, em estado de graça, sorridente, enquanto o resto da carruagem não escondia o incómodo. Era para ele que toda a gente olhava. Para ele não, para o sobretudo. O homem sorriu mais ainda, compreensivo. Ao sair, três paragens depois, indiferente aos suspiros de alívio nas suas costas, quase aposto que murmurou baixinho: «Cambada de invejosos».

Azul-turquesa. Num jardim, dois velhotes lêem o jornal. Um deles dobra as folhas e diz: «Ouve esta, ó Lopes, parece que os cientistas descobriram que a cor do universo é azul-turquesa.» Olhando para a copa das árvores, o sr. Lopes responde: «Grande coisa, isso já eu sabia há muito tempo.» O outro parece espantado: «Já sabias?» O sr. Lopes levanta-se e sacode as calças: «Claro que sabia.» O amigo encolhe os ombros e fica a vê-lo caminhar na direcção de uma senhora muito frágil. É a sua mulher, adivinha-se. Tem uns setenta anos, cabelo todo branco e olhos claros. Olhos azul-turquesa.

[Textos publicados no suplemento DNA, do Diário de Notícias, em 2001]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges