Voltar a Borges

Aconteceu-me com Jorge Luis Borges algo que não voltou a acontecer com mais ninguém. Quando o escritor argentino morreu, em Junho de 1986, eu tinha 14 anos e uma apetência voraz por tudo o que fosse «matéria escrita». Lia muitos livros (aproveitando as tardes infinitas dos infinitos verões do início da adolescência), mas também lia de ponta a ponta todos os jornais que me fossem parar às mãos. Para o vespertino Diário de Lisboa nunca reservava menos do que duas ou três horas diárias (quando finalmente o dobrava e ia lavar as mãos, antes do jantar, o lavatório enchia-se de tinta negra); os sábados, passava-os até meio da tarde a devorar com método, sempre pela mesma ordem, os vários suplementos do Expresso, não suspeitando que um dia viria a escrever naquelas páginas. Creio que foi pelo DL que soube da morte de Borges. Na altura eu acompanhava religiosamente o Mundial de Futebol no México (Portugal fora eliminado por Marrocos três dias antes), mas de súbito passou a existir outro argentino prodigioso, para além de Maradona.
Nos obituários e textos evocativos, eram recordados o génio literário, a erudição, a vida rodeada de livros por todos os lados, a cegueira, os temas obsessivos (bibliotecas, tigres, eternos retornos), bem como as sinopses de alguns dos melhores contos. Lembro-me de pensar: «Eu tenho de ler isto. Eu tenho de ler Borges.» Ao mesmo tempo, evitei os ímpetos do entusiasmo. Não sei porquê, meti na cabeça que era demasiado cedo para entrar em tão fabuloso labirinto. Inconscientemente, estava a tentar fugir à melancolia de Bernardo Soares, que no Livro do Desassossego admite: «ter já lido os Pickwick Papers é uma das grandes tragédias da minha vida». Tragédia porque nunca mais voltamos a ler pela primeira vez um livro amado (como nunca mais voltamos a ouvir pela primeira vez os últimos quartetos de Beethoven). Não quis desperdiçar a abordagem inicial a um autor que poderia vir a ocupar um lugar importantíssimo, senão o lugar cimeiro, no meu panteão literário (como veio a acontecer). Por isso adiei Borges. Senti a urgência de o ler aos 14 anos, mas esperei pelos 18, como quem aguarda a maioridade para descobrir os grandes prazeres.
Já na Faculdade de Ciências, um amigo do curso de Biologia andava pelos corredores da Escola Politécnica com Borges debaixo do braço, não escondendo um sorrisinho metafísico. Não aguentei mais. Atirei-me de cabeça. Pedi-lhe emprestada a Nova Antologia Pessoal (Difel), depois o Ficções na edição da Livros do Brasil (o maior choque térmico intelectual da minha vida). Fiquei apanhado de vez, irremediavelmente convertido à causa borgesiana. Depois, só descansei quando devorei tudo, primeiro livro a livro (em edições baratas da Alianza, compradas nas idas a Espanha), mais tarde nos quatro volumes das Obras Completas, publicadas pela Teorema (1998-1999). Borges é daqueles autores a que podemos sempre regressar, uma e outra vez ao longo da vida, porque a sua escrita – ou a percepção que dela temos – evolui connosco, vai reflectindo aquilo que em nós se altera com a acumulação de experiências, de leituras e conhecimentos entretanto adquiridos. Ler Borges aos 40 anos não é a mesma coisa do que ler Borges aos 18 (ou, claro está, aos 14). Tal como não será lê-lo aos 86.
Agora que a Quetzal inaugurou uma colecção Jorge Luis Borges, O Livro de Areia voltou à minha mesa de cabeceira. Há dias reli o primeiro conto: O Outro. É uma variação sobre o célebre Borges e Eu (de O Fazedor). Em 1972, o narrador Borges senta-se em Cambridge (Boston), diante do rio Charles, e encontra-se consigo mesmo, isto é, com o Borges de 1918, sentado num banco em Genebra, «a uns passos do Ródano». Heraclito e o rio do tempo são evocados, claro. O Borges de 72, maduro e reaccionário, olha com benigna condescendência para o jovem cujos versos adolescentes pretendem cantar «a fraternidade de todos os homens», essa «abstracção». E remata: «Só os indivíduos existem, se é que alguém existe. “O homem de ontem não é o homem de hoje”, sentenciou certo grego. Nós dois, neste banco de Genebra ou de Cambridge, somos talvez a prova disso.» Nós quatro, diria eu.

[Texto publicado no n.º 111 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges