Thomas Cromwell dá a Hilary Mantel o Man Booker Prize

Pela primeira vez desde 2002, o romance favorito à vitória no Man Booker Prize – o mais mediático dos prémios literários de língua inglesa – foi mesmo o livro vencedor. Há sete anos, aconteceu com A Vida de Pi, de Yann Martel. No passado dia 6, a sorte coube a Wolf Hall, da britânica Hilary Mantel (n. 1952), autora desde cedo apontada como principal candidata à vitória por toda a gente: críticos literários, agências de apostas, leitores em geral.
Numa edição vintage (das mais fortes e equilibradas dos últimos anos), com abundância de romances históricos, o júri presidido por James Naughtie, jornalista da rádio BBC, decidiu premiar «a absoluta grandeza deste livro, a audácia da sua narrativa e o esplendor dos seus detalhes». Ao receber 50 mil libras (54 mil euros), Mantel afirmou que o dinheiro lhe permitirá «comprar tempo», aquilo de que um escritor mais necessita. A principal recompensa, porém, é a explosão de notoriedade. Em menos de 24 horas, as vendas de Wolf Hall na Amazon aumentaram 1500%, o que lhe permitiu assumir a liderança no top da livraria online e relegar o último Dan Brown (The Lost Symbol) para segundo lugar.
Com dez romances na sua bibliografia, Mantel já experimentara a ficção histórica de grande fôlego em A Place of Greater Safety (1992), um épico sobre a Revolução Francesa centrado nas figuras-chave de Robespierre, Danton e Desmoulins. Nas 650 páginas de Wolf Hall (4th Estate), faz igualmente o escrutínio minucioso de uma época: as décadas de 1520/1530 em Inglaterra, durante o reinado de Henrique VIII. Com uma prosa quase perfeita e um ritmo imparável, que hipnotiza e subjuga o leitor, Mantel acompanha a ascensão, na agitada corte dos Tudor, de Thomas Cromwell, um maquiavélico advogado de origens humildes que se torna o principal conselheiro do rei e arquitecta a ruptura com a Igreja de Roma.
O romance andou duas décadas a ganhar balanço na cabeça de Mantel, exigiu-lhe cinco anos de trabalho e vai ter uma sequela – The Mirror and the Light – ainda em estado embrionário: «Por enquanto, a única coisa que existe é uma enorme caixa cheia de apontamentos.»
Apesar do entusiasmo com Wolf Hall, a decisão do júri não foi unânime. Houve três votos em Mantel e dois noutro autor, não revelado – provavelmente J.M. Coetzee, o escritor sul-africano que vive na Austrália e cultiva uma certa distância em relação ao mundo literário. Único dos finalistas que não esteve presente na cerimónia de atribuição do prémio, realizada no London’s Guildhall, em Londres, Coetzee, caso tivesse ganho com Summertime, tornar-se-ia o primeiro triplo vencedor do Booker, depois dos triunfos de 1983 (A Vida e o Tempo de Michael K) e 1999 (Desgraça).
Simona Catabiani, directora editorial da Civilização, que vai publicar Wolf Hall em Março ou Abril de 2010, ficou em êxtase com a vitória de Mantel, a que assistiu em directo pela BBC: «É um sonho pessoal que se cumpre: ver um dos nossos livros a ganhar o Booker. Nos últimos quatro anos estivemos perto, sempre com pelo menos um título entre os finalistas. Este ano foram dois [o outro sendo A Sala de Vidro] e tive a sensação de que Wolf Hall ia mesmo ganhar, porque o livro é fortíssimo e a autora consegue transmitir-nos um olhar pessoal, muito inovador, sobre a vida de Cromwell», explicou. Quanto ao previsível êxito comercial, será sempre uma espécie de bónus: «Comprei os direitos do livro ainda antes de ele ser escolhido para a longlist

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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