Belvedere

Falam sobre o Príncipe, junto à balaustrada. Ao longe as colinas, o céu de um azul-ferrete, aves em fuga para o sul, o sopro do vento nas searas.

– Dizei-me da sua coragem.
– Um dia, em plena batalha, avistou um pequeno gamo que estacara, paralisado pelo medo, a meio da planície onde estava alinhada, com as suas vestes garridas e o brilho das espadas, a infantaria inimiga. Os soldados, cegos pela raiva e pelos gritos dos comandantes, passavam pelo animal como se ele fosse invisível. E o nosso Príncipe, à distância, apercebeu-se de como tremia o pobre bicho, rodeado de fúria humana e metal. Foi então que esporeou o cavalo sem que ninguém o pudesse deter e, chegando num ápice ali onde estavam os infiéis, abriu caminho à espadeirada, chegou junto do gamo, apanhou-o sem desmontar e voltou triunfante para o lugar onde os nossos preparavam a refrega definitiva, não sem antes ser atingido por uma flecha no ombro. Entusiasmados com o heroísmo do Príncipe, vencemos a batalha e, mais tarde, a guerra. Eu próprio guardo várias cicatrizes no corpo, mas nenhuma tão formosa como a dele. Compreendes agora porque desenhamos tantos gamos nos brasões?
– Compreendo. E a sua sabedoria? Até onde chega?
– Dizer que chega ao infinito pode parecer um exagero, mas não é. O nosso Príncipe, desde muito novo, demonstrou grande inclinação para a matemática e para todas as ciências que envolvem cálculos. Ainda petiz, com não mais de nove anos, já passava noites ao relento, óculo apontado aos astros, tentando estimar distâncias angulares, rotas de cometas, translações. Quando chegou à adolescência, os mestres já nada tinham para lhe ensinar. Foi nessa altura que se fechou num mosteiro, a pão e água, pensando num sistema do mundo. Quem leu o seu Cosmos, um exemplar único que está guardado na Biblioteca Real, diz que explica o universo todo, da formiga à estrela, demonstrando com lógica inatacável que se trata de uma realidade sem limites. Só de imaginar tal prodígio, consta, os leigos como nós sentem vertigens. Nunca se viu nesta Terra, afirmam os mais distintos sábios europeus, inteligência tão profunda, tão sólida, tão abrangente.
– E é generoso, este vosso Príncipe perfeito?
– A palavra bondade foi criada para o descrever. Onde havia pobreza e caos, impôs a ordem e a prosperidade. Onde havia crime e perfídia, fez cair a lâmina da justiça.
– Quereis dizer que não há nele a mínima sombra?
– Já vês que não. É corajoso, é sábio, é bom.
– Posso deduzir que os relatos de assassínios e outras ignomínias que lhe atribuem são mentiras sem qualquer fundamento?
– Eis uma pergunta que nem merece resposta, estrangeiro.

Retiram-se os fidalgos do belvedere, à medida que cai a noite. A lua, muito redonda, levanta-se no horizonte. O anfitrião deixa o convidado junto à lareira, falando com o compositor da corte. Desce então às caves para indicar aos criados qual das pipas do seu melhor vinho é que devem abrir.
Ao voltar para cima, ouve acordes no cravo, gargalhadas. Faz um pequeno desvio até aos seus aposentos. Na penumbra, procura o frasquinho de veneno e esconde-o na pequena bolsa que traz sempre ao peito, por baixo da capa.

[in Efeito Borboleta e outras histórias, Oficina do Livro, com chegada às livrarias prevista para a última semana deste mês]



Comentários

One Response to “Belvedere

  1. o puma on Junho 4th, 2008 22:41

    Admito que seja Sócrates

    na Moderna

    ainda à espera de uma oportunidade

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges