Do baú

Para além de todas as outras funções, este blogue tem servido como arquivo dos trabalhos que vou publicando na imprensa. Quando preciso de saber em que data entrevistei determinado escritor, ou reler a crítica a um livro editado há quatro anos, vou à memória do blogue e encontro tudo num instante. Antes de entrar para a blogosfera, em 2003, os meus textos perdiam-se na existência efémera do papel e jazem hoje soterrados em hemerotecas, no fundo de dossiers que provavelmente ninguém compulsa. É esse aliás o destino da maioria das prosas de jornal: existir fugazmente e desaparecer para sempre. Na maior parte dos casos, não se perde grande coisa. Poucas são as palavras impressas que resistem ao crivo do tempo. A arqueologia será sempre uma ciência do futuro. A ciência de alguém que observa, lá ao longe, de um século inimaginável, dando valor ao que nos parece comum, banal, sem importância.
O certo é que às vezes me apetece resgatar textos que escrevi com outra idade, noutra década, pode até dizer-se noutra vida. Um dia, esforcei-me para lhes dar forma. E eles depois escaparam-me, ficaram para trás, condenados a uma penumbra que a cada dia se torna mais escura, até à aniquilação definitiva que é o esquecimento. Na maior parte dos casos, admito sem falsa humildade, não merecerão melhor sorte. Mas há algumas prosas que talvez possam voltar à superfície, nem que seja para mostrar como sobreviveram (ou não) à passagem dos anos.
Tudo isto para dizer que inauguro hoje uma nova secção, Do baú, justamente com textos antigos (sobretudo crónicas), publicados maioritariamente no antigo suplemento DNA, nos primeiros anos deste século. Eu próprio, no processo de os recuperar, em vetustos ficheiros informáticos, acabarei por redescobri-los com o distanciamento que não tive quando os escrevi.



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges