Dan Brown: “Eu queria muito que toda a gente gostasse do meu trabalho, mas não é assim que funciona”

Situada oitenta quilómetros a norte de Boston, já no estado de New Hampshire, Exeter é uma típica cidade de província. Casas em madeira, ruas tranquilas, árvores outonais com folhas amarelas e vermelhas. Em frente à igreja luterana, a biblioteca da Philips Exeter Academy, um edifício em tijolo vermelho e betão (desenhado nos anos 60 pelo arquitecto Louis Kahn), é um bastião do conhecimento. «Esta escola secundária está entre as melhores dos EUA», garante-nos, com uma ponta de orgulho, Dan Brown, enquanto faz questão de mostrar, atrás das vitrinas do quarto piso, as prateleiras cheias de livros escritos por antigos alunos, como Gore Vidal, John Irving e o próprio Dan Brown.
Entre as muitas dezenas de volumes, brilha a capa do seu último romance, The Lost Symbol (O Símbolo Perdido), terceiro livro com o seu personagem-fétiche, Robert Langdon, um simbologista que, depois das aventuras em Roma (Anjos e Demónios) e Paris (O Código Da Vinci), deambula agora pelos principais monumentos de Washington, à procura de um segredo enterrado pelos «pais fundadores» da nação americana e protegido pela Maçonaria.

No dia em que chegou às livrarias dos EUA e Reino Unido (15 de Setembro), o seu novo romance vendeu mais de um milhão de exemplares. Ficou aliviado ao perceber que continua a ser o maior best-seller de literatura para adultos, seis anos após o fenómeno de O Código Da Vinci?
Claro. Quando não se publica durante tanto tempo, uma pessoa começa a ter dúvidas. Será que as pessoas ainda se lembram de nós? Os meus editores garantiam-me que sim e que o novo livro só podia ser outro sucesso, mas eu não tinha assim tanta certeza. Por isso, claro que me senti aliviado. Foi um grande dia.

Não teme o escrutínio apertado a que O Símbolo Perdido vai ser sujeito?
Não. Acho que é o meu melhor livro. O mais complexo, aquele que tem mais códigos, mais símbolos, mais reviravoltas no enredo. E creio também que é o meu romance com material filosófico mais profundo.

O livro estava previsto para 2006 e foi sendo sucessivamente adiado. Houve alguma espécie de bloqueio criativo?
Pelo contrário. O meu problema é sempre o excesso de material. O facto de escrever a mais, nunca o facto de escrever a menos. Felizmente, graças a Deus, não há um único dia em que me sente para trabalhar e não saiba o que escrever.

Há uma cena irónica neste livro em que Robert Langdon fala com o seu editor e este lhe recorda que continua à espera de um manuscrito.
É uma piada autodepreciativa, claro. Ele respeitou o meu tempo. O editor sabia que ninguém seria capaz de colocar mais pressão em cima de mim do que eu próprio. Eu queria que este livro ficasse pronto mais do que qualquer outra pessoa. E ele disse-me: o mais importante é que escrevas um bom livro. Leve o tempo que levar, escreve um bom livro. E eu fui muito insistente comigo mesmo, no sentido de que as pessoas que leram O Código Da Vinci e adoraram ficassem igualmente entusiasmadas com este livro. Ou mais.

Após a publicação de O Código Da Vinci, teve que enfrentar vários processos de plágio, que venceu. Espera ser atingido por esse tipo de problemas com O Símbolo Perdido?
Duvido muito que isso aconteça, porque essas pessoas agora sabem que não pago cheques para que elas desapareçam e que, se for preciso, as enfrento em tribunal. O processo movido por Baigent e Leigh foi frívolo.

E cansativo.
Muito cansativo, porque eles só queriam que eu lhes passasse um cheque e eu não estava disposto a fazer isso. Não deixo que me acusem de plágio quando não plagiei.

Por vezes fica-se com a sensação de que está sempre a escrever o mesmo livro. Há códigos decifrados em tempo recorde, há organizações misteriosas que tentam proteger (ou destruir) segredos que podem mudar o mundo, há enigmas com arquitectura, pinturas com significados simbólicos, etc. Os elementos podem mudar, mas as suas estruturas ficcionais são as mesmas. Será que existe uma fórmula Dan Brown?
Se existe, gostaria que alguém me explicasse qual é, porque tornaria a escrita muito mais fácil. É verdade que há elementos comuns aos vários livros, como esses que referiu. Mas não creio que seja possível criar romances com este grau de complexidade a partir de uma qualquer fórmula. Isto é apenas a minha maneira de escrever.

Mas essa insistência numa forma muito particular de thriller histórico-cultural, com uma forte carga mítica, não pode tornar-se cansativa para os seus leitores?
Não creio. O gozo destes livros está na sucessão de códigos e segredos para desvendar, que são sempre diferentes. Se vir bem, os leitores do Ian Fleming nunca se cansam do James Bond. E os livros do James Bond também são todos iguais. Os martinis, as raparigas bonitas, as cenas de acção, etc. Eu acredito que o truque para contar uma boa história é dar ao leitor o que ele espera, mas de uma forma inesperada. Toda a gente sabe que no fim o James Bond vai desarmar a bomba e ficar com a miúda, mas ainda assim queremos saber o que é que ele faz antes de chegar até ali.

Há muita gente a imitar o seu estilo e um número impressionante de livros sobre os seus livros. O que pensa desta espécie de parasitismo?
Para ser sincero, não tenho problemas com isso. Uma das coisas que quero fazer com os meus livros é criar diálogo. E se as pessoas se mostram tão interessadas por estes temas que querem debatê-los, escrevendo os seus próprios livros, por mim tudo bem. Alguns desses livros são muito críticos em relação ao que faço, mas não quero saber. Eu só quero provocar reacções nas pessoas. Por isso, nada disso me incomoda. E é bom para a indústria do livro.

É verdade que já tem planeados mais 12 livros com o Professor Robert Langdon como protagonista?
Sim, é verdade. Não sei se os conseguirei escrever, mas tenho ideias para mais 12 romances.

Essas ideias estão na sua cabeça ou já no papel?
No papel.

Guardados num cofre?
Sim. Muito bem protegidos da curiosidade alheia.

Conhece o gerador interactivo de sequelas de Dan Brown criado pela revista Slate?
Não, não conheço. O que é isso?

É uma aplicação na Internet que fornece automaticamente, após a escolha de uma determinada cidade e seita, um enredo à maneira de Dan Brown.
Soa-me muito bem. (Risos) Talvez a utilize um dia destes, se estiver menos inspirado.

Muitas pessoas temiam que este livro fizesse à Maçonaria o que O Código Da Vinci fez à Opus Dei. Isto é, um ataque violento a uma organização secreta e poderosa. Mas não foi isso que aconteceu. O retrato que traça dos maçons acaba por ser bastante positivo, para não dizer laudatório.
O que posso dizer é que investiguei os maçons a fundo, durante dois anos. Se descobrisse que eles eram adoradores satânicos obcecados pela ideia de dominar o mundo, teria escrito isso mesmo no livro. Acontece que não foi isso que descobri, antes pelo contrário.

O que é que já sabia sobre a Maçonaria antes desta investigação?
Já conhecia muita coisa, mas a pesquisa para este livro foi tão profunda que adquiri uma perspectiva inteiramente nova sobre a filosofia dos maçons.

Quanto tempo é que durou essa pesquisa?
Uns dois anos.

Chegou a estar dentro, como membro?
Não. Porque um dos juramentos que se faz é o do secretismo. Como sou uma pessoa de princípios, se fizesse um juramento de secretismo, manteria esse juramento. Como sabia que não seria capaz de o manter, não aderi. Seria desonesto da minha parte fazer o juramento de secretismo, juntar-me à organização e depois revelar os seus segredos.

Agora que publicou o livro, já nada o impede de aderir.
Suponho que não.

E está a pensar nisso?
Não. Por agora não. Prefiro ficar de fora.

A verdade é que se decidisse entrar – e até pode já ter entrado – nunca o diria.
Exactamente.

Há um lema dos maçons que parece feito à sua medida: «ordo ab chao». Certo?
Certo. É o que todos tentamos fazer com as nossas vidas. Transformar o caos em ordem. É o objectivo da religião. É o objectivo da ciência.

Dois conceitos que se fundem num ramo de investigação a que dedica muitas páginas no seu livro: a ciência noética.
Ao estudarmos os Mistérios Antigos, verificamos que há uma insistência nos poderes da mente humana. A ciência noética é, no meu entender, a primeira ciência verdadeira que começa a mostrar-nos quantitativamente que nós, com as nossas mentes, temos poder para afectar o universo físico.

Mas isso não está provado de uma forma cientificamente séria.
Ai está, sim. Toda a ciência descrita no meu livro é verdadeira. Todas aquelas experiências existem, foram feitas, mesmo as que apresentam resultados difícil de aceitar. Há seis anos, eu teria dito que os pressupostos da ciência noética são impossíveis. Mas depois investiguei muito e mudei de opinião.

Se as experiências relatadas no livro são verdadeiras, por que é que a ciência noética é tão pouco conhecida?
Eu estou a tentar mudar isso.

Acha que este livro pode ajudar a ciência noética a sair da sombra?
Claro que sim. Aliás, já o fez. As instituições que estudam a ciência noética recebem hoje mais financiamentos, chegam à TV, etc.

Devem estar muito contentes consigo.
Na verdade, eles amam-me. (Risos)

O Símbolo Perdido enfatiza a relação entre os fundadores da nação americana e a Maçonaria, através das simbologias maçónicas presentes em Washington.
Sim, isso era algo que toda a gente sabia. Mas aquilo que chocou mais algumas pessoas, e um dos aspectos mais surpreendentes que descobri na minha pesquisa, foi a negação da ideia segundo a qual a América foi fundada como um país cristão, por pais fundadores que também eram cristãos. Isso não é verdade.

Eles eram deístas.
Exactamente. O próprio Thomas Jefferson pegou na Bíblia e riscou todas as partes que tinham a ver com milagres: a virgindade de Maria, a ressurreição, etc. E esta Bíblia foi dada aos membros do Congresso durante décadas. Pouca gente sabe isto. E acho que parte da controvérsia em torno deste livro vai passar por aqui.

O seu pai é um conhecido matemático…
Muito conhecido, mesmo. É o autor daqueles livros de Álgebra todos, com as capas coloridas [aponta para uma estante ao fundo da sala].

Foi com ele que ganhou o gosto pela resolução de códigos e puzzles?
Sem dúvida. Nas manhãs de Natal, quando descíamos para a sala, não havia presentes debaixo da árvore. Havia só um cartão com um código que tínhamos de solucionar e que no fim dizia, por exemplo, frigorífico. E nós corríamos para o frigorífico, onde encontrávamos outro código. Dali íamos para outro lado qualquer, onde o meu pai colocara outra pista. E assim sucessivamente. Só no fim de uma sequência de descobertas é que chegávamos às prendas.

Curiosamente, essa podia ser a sinopse dos seus livros.
Pois podia. Eles funcionam exactamente da mesma maneira.

Então é como se regressasse à infância de cada vez que escreve um romance.
Sim. Acho que pode dizer isso.

Foi uma infância feliz?
Muito feliz. Uma infância protegida, sem traumas. Os meus pais estão os dois vivos e são pessoas maravilhosas. Cresci aqui em Exeter, entre estudantes de todo o mundo, com as mais diversas religiões e culturas. O verdadeiro melting pot. Acho que isso contribuiu para que eu tivesse, desde cedo, um espírito muito aberto.

No início dos anos 90, com vinte e poucos anos, tentou uma carreira musical em Hollywood, mas sem sucesso. O que é que aprendeu com esse falhanço?
A importância da persistência. Aprendi que só conseguimos chegar a algum lado se tivermos persistência e se nos mantivermos focados no que queremos fazer. Naquela altura, a minha música não era comercial, porque apareceu no início da loucura com o rap, quando ninguém queria saber da pop. Mas eu não quis perder o meu foco. Então, em vez de me adaptar a uma realidade com a qual não me identificava, decidi escrever romances.

Essa decisão, já o disse várias vezes, concretizou-se depois de ler um romance de Sidney Sheldon, durante umas férias no Tahiti. Que outras influências literárias é que tinha nessa altura?
Curiosamente, as minhas leituras limitavam-se praticamente aos clássicos que aprendera durante o ensino secundário: Shakespeare, Steinbeck, Faulkner, Homero. E não conhecia nada da literatura mainstream contemporânea. Eu nem sequer sabia que existiam livros daqueles. Ao pegar no romance de Sheldon, pensei: «Acho que era capaz de fazer isto.»

O seu terreno de eleição é o thriller. Consegue imaginar-se a escrever outro género literário?
Talvez. A vida é longa e eu aprendi a nunca dizer nunca.

E o que se escreve fora dos EUA? Interessa-lhe? Conhece, por exemplo, alguma coisa da literatura portuguesa?
Durante um ano, eu estudei em Sevilha e li muitos livros em espanhol: Cervantes, Borges, García Márquez, esses todos. Mas, para ser honesto, não consigo lembrar-me de nenhum escritor português que tenha lido.

Os críticos costumam ser muito duros ao avaliar os seus livros. Dizem que o Dan escreve mal, que o seu estilo é pesadão ou ridículo, que as personagens não têm espessura psicológica, etc. Estas opiniões afectam-no? Aborrecem-no? Reflecte sobre elas ou ignora-as?
É preciso ignorá-las completamente. Eu queria muito que toda a gente gostasse do meu trabalho, mas não é assim que funciona. Sobretudo quando se tem muito sucesso comercial.

Fica zangado ao ler as críticas negativas?
Costumava ficar. Mas agora isso já não me afecta. A partir de certa altura, segui um conselho que me deram: não oiças os teus críticos e não oiças o que dizem as pessoas que gostam de ti. Porque se ouvires as pessoas que dizem que és um génio, ficas preguiçoso, armado em bom, etc. E se ouvires os que te arrasam, ficas inseguro e deixas de confiar em ti mesmo. A essas pessoas, não lhes ligues. Escreve o que te apetecer, como te apetecer. Se as críticas negativas me afectassem, eu talvez escrevesse de outra maneira. A verdade é que escrevo exactamente como sempre escrevi, numa prosa muito moderna, transparente e fácil de ler. Uma prosa cujo único objectivo é servir a história que quero contar.

Assume então que o que lhe interessa é o enredo. A linguagem é secundária.
Sim. Se quisesse escrever num estilo floreado, acho que era capaz de o fazer. Mas não me interessa. O que me interessa é contar uma história que prenda o leitor.

Numa das primeiras cenas de O Símbolo Perdido, a sua minúcia descritiva vai ao ponto de assinalar a marca dos motores do avião a jacto em que Robert Langdon viaja. Será que precisávamos mesmo de saber isto?
Para mim, são os pequenos detalhes que nos fazem acreditar no que lemos. É o detalhe que transporta o leitor para as situações e permite que este diga: «OK, o escritor esteve ali, ele sabe do que está a falar.» No fundo, é sempre uma questão de gosto. No seu caso, talvez preferisse que o meu livro fosse menos específico. Respeito isso. Mas eu só posso escrever aquilo que gostaria de ler. E eu gosto desse tipo de detalhes.

Entre esses detalhes de que fala, estão muitas referências a marcas de carros, de telemóveis, etc. Há quem diga que deve ganhar bom dinheiro com o product placement nos seus livros.
É verdade que essas referências têm um determinado valor comercial, mas eu nunca aceitei dinheiro das marcas. Nem dinheiro nem outra coisa qualquer.

A questão só se coloca porque toda a gente sabe que nas adaptações cinematográficas essas referências são pagas.
Eu também sei isso. E sei porque ao ler o guião de O Código Da Vinci percebi que estava sempre a aparecer um certo modelo de computador da Sony. Eu riscava a referência, mas ela reaparecia a cada nova versão do argumento. No caso de O Símbolo Perdido, eu refiro-me várias vezes ao iPhone, porque toda a gente sabe como é o iPhone e em vez de descrever um telemóvel genérico, que faz isto e aquilo, escrevo iPhone e numa palavra o leitor já sabe como é aquele objecto, para que serve, o que é capaz de fazer, etc.

No livro também há referências ao mundo da Web 2.0. Uma das personagens escreve um blogue, outra fala do Twitter.
Eu interesso-me muito por tecnologia. Sei perfeitamente como funciona o microblogging e embora não escreva tweets, tenho uma conta para seguir um pouco do que se vai escrevendo nesta plataforma.

Já houve reacções no Twitter à presença do Twitter no seu livro?
Oh, sim. Imensas.

«Assim que publicar o meu trabalho, os adeptos do Twitter vão começar a enviar tweets a dizer “aprender sobre noética”, e o interesse na ciência explodirá de forma exponencial», diz uma das personagens.
Exacto. Eu coloquei essa frase de propósito, para ver o que acontecia.

E o que é que aconteceu?
Precisamente o que a Katherine sugeria. No dia seguinte, havia pessoas em todo o lado a enviar tweets que diziam “aprender sobre noética”. Foi incrível. Fiquei com a sensação de que estava a prever o futuro e a criá-lo ao mesmo tempo.

A última palavra do livro é «Esperança» («Hope») e surge no final de uma descrição idílica do nascer do sol em Washington. Acontece que esta palavra foi usada, como slogan eleitoral, por um certo político que curiosamente agora vive… em Washington.
Devo dizer que essa última palavra já existia muito antes da eleição de Barack Obama.

De certeza?
Absoluta. Durante a campanha presidencial eu estava fora do mundo, a acabar o livro. Não liguei a nada do que se passava na política americana. Foi só depois da eleição que alguém me disse que eu devia gostar muito de Barack Obama, para fechar o livro com a tal palavra. Mas a verdade é que não foi intencional.

Foi o quê, então? Uma coincidência?
Isso. Uma coincidência.

Como assim, se o Dan não acredita em coincidências?
Pois é. Não acredito em coincidências. Se calhar fizeram-me uma lavagem ao cérebro. (Risos)

No dia em que o livro foi lançado, muita gente comentou um facto inédito. No site da Amazon, a versão e-book de O Símbolo Perdido vendeu mais do que a versão em papel. Será isto o início de uma revolução digital no mundo dos livros?
Não sei se lhe podemos chamar uma revolução. Eu leio e-books. Tenho os leitores todos que saíram, menos o Nook, da Barnes & Noble, que saiu a semana passada. Mas continuo a preferir os livros em papel. Se estiver em casa, leio um de capa dura. Se for à praia, levo um de bolso. Se viajar, opto pelo Kindle. No fim de contas é só um aparelho, outra forma de ler. As questões mais sérias são as que se prendem com a pirataria e o futuro dos editores. Quanto a esta questão, contrariamente ao que pensa muita gente, acho que o e-book vai ser bom para os editores. No momento em que qualquer pessoa tiver acesso a uma distribuição global da informação, haverá tantos maus livros a circular que o leitor não saberá como orientar-se. Os editores serão nessa altura uma referência de qualidade, uma forma de separar o trigo do joio, pelo que acho que terão ainda mais importância do que têm hoje, e não menos.

Pode saber-se que livro é que está agora no seu leitor de e-books?
Pode. São as Cartas da Terra, do Mark Twain. É um livro hilariante. Muito divertido, muito inteligente, muito à frente do seu tempo. A secção sobre a Arca de Noé, por exemplo, é uma das coisas mais engraçadas que alguma vez li.

E agora? Vamos ter que esperar mais seis anos pelo sucessor de O Símbolo Perdido?
Espero que não. Neste momento estou a colaborar na escrita do argumento cinematográfico de Deception Point (A Conspiração, Bertrand). Mas quando o guião estiver terminado, tenciono jogar um bocadinho de ténis, um bocadinho de golfe, e depois volto ao trabalho.

[Versão longa de uma entrevista publicada na revista Única, do Expresso]



Comentários

8 Responses to “Dan Brown: “Eu queria muito que toda a gente gostasse do meu trabalho, mas não é assim que funciona””

  1. Juliana Rodrigues on Novembro 10th, 2009 16:27

    Muito boa a entrevista, estou doida pra ler o novo livro.
    Gostei muito do teu poste

    Ate!

  2. João André on Novembro 11th, 2009 15:49

    Bela entrevista Zé Mário, obrigado. É possível ficar a conhecer um pouco mais dos processos de pensamento e criativos do Daniel Castanho. Espero é que no futuro alguém o aperte como deve ser sobre a questão da noética e o confronte com o facto de as tais experiências não serem críveis. Mas isso não cabia nesta entrevista, como é óbvio.

  3. Ana Rodrigues on Novembro 12th, 2009 0:53

    Permita-me um comentário. Parece-me que fazer ciência passa por estudar caos e ordem e não “transformar o caos em ordem”. Tudo o resto a que ele chama ciência –“Toda a ciência descrita no meu livro é verdadeira. Todas aquelas experiências existem, foram feitas, mesmo as que apresentam resultados difícil de aceitar.” — faz com que qualquer experiência culinária mereça ser publicada numa boa publicação cientifica, o que é evidentemente uma noção terrível e mostra um tremendo desprezo por quem faz Ciência (essa área em que é esperado que se possa reproduzir os resultados obtidos).
    Mas Boston é tão bonito, espero que tenha gostado. E já agora, em Boston faz-se boa Ciência J

  4. Pedro Lerias on Novembro 13th, 2009 21:53

    Interessante a entrevista. Obrigado por partilhar.

  5. Gerana Damulakis on Novembro 14th, 2009 1:41

    Concordo inteiramente com o comentário acima, de ana rodrigues.

    O homem tem mais 12 ideias. Isso me faz lembrar uma história interessante que se conta aqui: quando Einstein esteve no Brasil, o presidente da Academia Brasileira de Letras de então, Austregésilo de Athayde, caminhava ao lado do grande cientista e tirava amiúde do bolso uma moleskine onde anotava alguma coisa. Curioso, Einstein perguntou o que tanto ele anotava e Austregésilo respondeu que eram ideias que lhe ocorriam. Einstein teria dito: “Gozado, eu só tive uma ideia na minha vida inteira”.

  6. Carlos on Novembro 16th, 2009 13:15

    DB-A verdade é que escrevo exactamente como sempre escrevi, numa prosa muito moderna, transparente e fácil de ler. Uma prosa cujo único objectivo é servir a história que quero contar.

    P-Assume então que o que lhe interessa é o enredo. A linguagem é secundária.

    DB-Sim. Se quisesse escrever num estilo floreado, acho que era capaz de o fazer. Mas não me interessa. O que me interessa é contar uma história que prenda o leitor.

    Ora aqui está um dos aspectos que aprecio neste escritor, embora saiba que é uma das suas fragilidades, no entender dos críticos.

  7. “O gozo destes livros está na sucessão de códigos e segredos para desvendar” « Animal Civilizado on Novembro 18th, 2009 19:42

    […] Brown, numa entrevista a propósito de O Símbolo Perdido, publicada no Bibliotecário de Babel. No mesmo blogue, está disponível para leitura uma recensão sobre esse […]

  8. Miguel V. Dias on Dezembro 6th, 2009 12:47

    Excelente entrevista. Colocou a «nú» alguns pensamentos e ideias de Dan Brown que muitos desconheciam. A receptividade às novas tecnologias, etc foram temas muito bem abordados.
    Parabéns e Obrigado pelo seu trabalho.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges