David Machado: “Ou és optimista ou não és. E se és, dificilmente mudas essa maneira de olhar para as coisas”

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O protagonista do novo romance de David Machado, Índice Médio de Felicidade (Dom Quixote), é um optimista obstinado. Por muitas desgraças que lhe aconteçam, ele não desiste, não desanima, não baixa os braços. Desempregado, sem perspectivas de melhorar a sua situação económica, afastado da família, Daniel perde a casa, dorme no carro (e depois debaixo da antiga secretária, na agência de viagens em que trabalhava, entretanto falida), zanga-se com os amigos que não consegue abandonar à sua sorte, e teria, somado tudo isto, boas razões para não acreditar no futuro. Mas acontece precisamente o contrário. Aliás, ele acredita tanto no futuro que está sempre a moldá-lo, num caderno onde esboça o seu Plano (com maiúscula), muitas vezes emendado mas nunca posto de parte. No fim do livro, esta resiliência vai levá-lo numa viagem de carrinha, com algumas das outras personagens, pelas estradas da Europa até à Suíça, viagem que acaba por ser um momento de redenção – prova de que vale a pena manter a esperança, mesmo nos tempos mais negros.
Cercado de árvores, num dos parques mais discretos de Lisboa, David Machado explica que a sua intenção, embora a realidade do Portugal pós-troika seja palpável no livro, nunca foi escrever sobre a crise do país. «Interessou-me, isso sim, retratar um homem em crise. Esta figura do Daniel, cujo optimismo é continuamente posto em causa, mas resiste ao desânimo, mesmo quando a sua vida implode.» O facto de ele se mover na sociedade portuguesa contemporânea é circunstancial: «Podia transportá-lo para outro tipo de cenário: a Inquisição, uma guerra. Mas acabamos por escrever sobre aquilo que conhecemos melhor, e eu vivo aqui, eu vivo agora.» O protagonista surgiu antes de a história ganhar os primeiros contornos: «Já andava a pensar no Daniel. Ao contrário de todas as outras personagens que inventei, ele parece-se comigo, identifico-me com ele. Basta dizer que tenho na costas uma tatuagem do caracter mandarim que corresponde à palavra ‘feliz’.»
Ao escrever sobre Daniel, ao expô-lo a situações-limite, o escritor projectou-se no seu difícil percurso: «Queria perceber até que ponto é possível uma pessoa manter-se optimista. Sempre me senti optimista, mas não sei se isto um dia não pode ficar tão mal que eu perca a esperança. Queria muito pensar sobre isso. No fim, acho que fiquei a conhecer-me melhor.» Uma das conclusões a que chegou foi a de que se pode orientar uma pessoa para ser mais feliz, mas não é possível ensinar alguém a ser optimista. «Isso ou és ou não és. E se és, dificilmente mudas essa maneira de olhar para as coisas.» Uma maneira de olhar que ultrapassa o racionalismo objectivo que dá quase sempre razão aos cínicos: «O optimismo leva-nos a acreditar que o futuro pode ser melhor. É claro que sabemos que também pode ser pior, mas existe pelo menos a possibilidade de que seja melhor. Se acreditarmos nisto, estamos sempre prontos a esperar mais um bocadinho e a não desistir.»
No final do livro, Daniel só consegue vencer os seus bloqueios porque leva outros com ele na viagem de superação. «Curiosamente, e embora não tivesse consciência disso enquanto escrevia, o desenlace é corroborado pelas teorias da chamada Economia da Felicidade. Até há pouco tempo, a felicidade era vista como um objectivo individual, mas estas novas teorias dizem que só conseguimos ser plenamente felizes em sociedade, como parte de um todo, em conjunto com outros. E é isso que o meu romance acaba por dizer: o Daniel, que nunca quer deixar ninguém para trás, só consegue avançar se os outros se lhe juntarem.» David Machado gosta de acreditar que «o Daniel nos representa a todos». Podemos andar mais ou menos zangados com o mundo, ou connosco, mas de uma forma ou de outra mantemos alguma esperança, tentamos afugentar o medo do futuro. «Caso contrário, já tínhamos dado um tiro na cabeça. E, se virmos bem, as pessoas que se suicidam, as que desistem mesmo, são uma ínfima parte da humanidade.»
Em Deixem Falar as Pedras (Dom Quixote, 2011), o romance anterior de David Machado, um rapaz transcrevia as histórias do avô num caderno, resgatando assim não apenas o passado de um homem como a memória do Portugal salazarista. Em Índice Médio de Felicidade, Daniel também recorre a um caderno, mas desta vez para fixar o futuro que deseja para si e para o país. David Machado assume que os livros se complementam: «Pode dizer-se que formam um díptico. São os dois sobre a importância que o passado e o futuro têm para o nosso presente. Só podemos viver o agora se estivermos conscientes do que houve antes e soubermos o que queremos que aconteça depois.»
O Valdemar de Deixem Falar as Pedras era um adolescente problemático: obeso (mas com uma namorada anoréctica), família instável e um historial de maus tratos aos colegas de escola. No novo livro, a galeria de adolescentes complexos aumenta: há Vasco, um rapaz que pertence a um grupo que espanca e humilha vítimas indefesas (sobretudo sem-abrigo alcoolizados), colocando na internet os vídeos dos seus crimes; há Flor, uma rapariga que sublinha nos jornais as palavras negativas, sinalizando uma descrença cada vez maior quanto ao mundo que a espera; e há Mateus, o filho mais novo de Daniel, ainda pré-adolescente, mas já perdido no mundo alienante dos jogos online, mais preocupado com a gestão de aviários virtuais do que com os problemas das pessoas ao seu lado. «A adolescência interessa-me muito. Aliás, em princípio, o meu próximo livro será só sobre a adolescência. Interessa-me porque é a fase da vida em que estamos a descobrir tudo. De repente, percebemos que o mundo é mil vezes maior do que imaginávamos. E a descoberta leva a que se queira testar essa nova realidade, o que implica ultrapassar alguns limites. Interessa-me, no fundo, ver como se pode ultrapassar os limites e depois encontrar um lugar na complexidade do mundo. Perceber como é que se forma o carácter de alguém.»
Enquanto narrador, Daniel não fala para o vazio, ou para o leitor, mas para um destinatário concreto: Almodôvar, um amigo que foi detido depois de assaltar uma estação de serviço, e que se recusa a recebê-lo em visita na prisão. Dentro da sua cabeça, Daniel dirige-se ao amigo não só para recapitular a história, que não lhe pode contar de viva voz, mas também para provar que ele afinal não estava errado ao ter a ideia de um site que pretendia cruzar pessoas a precisar de ajuda com outras dispostas a ajudar. O site fracassou por falta de interessados mas a viagem final prova que o princípio que o sustentava tem razão de ser. Das muitas formas possíveis de narrar a história, David Machado escolheu esta, uma espécie de diálogo mental entre os dois amigos desavindos, porque não gosta dos livros em que não se percebe a razão porque uma determinada história está a ser contada, ou para quem.
A única investigação que fez para o romance consistiu em ver, no YouTube, dezenas de vídeos das TED Talks sobre felicidade. A dada altura, deparou com as tabelas que medem o índice médio de felicidade por país, no mundo inteiro, e decidiu explorar o conceito. «Quando encontrei o índice, achei que encaixava bem na personagem do Xavier, obcecado com números e estatísticas e deprimido por causa disso. Só depois é que a ideia cresceu, ao ponto de influenciar a estrutura do livro e chegar ao título – que é da Maria do Rosário Pedreira, depois de um grande esforço para encontrar uma expressão que incluísse a palavra felicidade, sem correr o risco de ser confundido com as charlatanices da auto-ajuda.» O índice parte das respostas individuais a uma pergunta: «Numa escala de 0 a 10, quão satisfeito se sente com a vida no seu todo?» Daniel começa por se atribuir um 8, mas depois vai corrigindo, sempre para valores mais baixos. «Eu não respondi à questão porque neste aspecto sou muito parecido com o Xavier. Só é possível responder se quantificarmos tudo, se dissecarmos a nossa vida em todos os seus aspectos. Levada a sério, é uma tarefa infinita. E eu não estou disposto a empreendê-la.»

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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