Hilary Mantel: “Começar um livro é sempre um passo na escuridão, uma questão de fé”

Numa rua esconsa, perpendicular a High Holborn, bem no centro de Londres, fica a sede da A. M. Heath & Company, a agência literária que representa Hilary Mantel, neste momento a estrela maior das letras britânicas, depois de ter obtido dois prémios Man Booker com os seus romances históricos sobre Thomas Cromwell: Wolf Hall e Bring Up the Bodies (o primeiro já publicado em Portugal pela Civilização; o segundo com saída prevista para esta Primavera na mesma editora). Foi num sofá azul e desconfortável, junto a um janelão por onde entrava a luz cinza de uma tarde invernosa, que conversámos com a escritora, sempre cordial e aparentemente ainda capaz de falar com paixão sobre o que a move na paisagem literária, mesmo depois de toda a sobrecarga mediática a que tem sido sujeita nos últimos anos. A dois metros, Gerald, marido e secretário, esperou mais de uma hora, lendo uma revista.

Durante muito tempo, apesar dos elogios da crítica, os seus livros raramente chegavam à shortlist dos principais prémios literários. Ao vencer o Man Booker Prize com Wolf Hall, em 2009, essa tendência inverteu-se. Agora, com o segundo romance sobre Thomas Cromwell, Bring Up the Bodies, não só ganhou outra vez o Booker (feito inédito para um autor britânico) como juntou-lhe o importante Costa Award, entre outros. A que se deve esta mudança?
Para ser franca, não sei. Admito que o facto de escrever sobre o reinado de Henrique VIII, um período da História que continua a fascinar os ingleses (e não só), possa ter contribuído para a mudança. O certo é que eu era o exemplo da escritora que nunca ganha nada e de repente transformei-me no tipo de autor que colecciona prémios. Houve até um crítico que se mostrou aborrecido com a atribuição do primeiro Booker, porque me considerava o seu pequeno segredo. Na verdade, eu só posso sorrir com tudo isto, na medida em que sou a mesma pessoa, a mesmíssima escritora. A única diferença é que de repente me tornei visível.

Não deixa de ser curioso que a consagração tenha chegado com livros de ficção histórica, precisamente o género em que deu os primeiros passos literários.
É verdade. Quando comecei a escrever, via-me como uma escritora de romances históricos. Como nunca fui boa a construir enredos, deixava que a História se encarregasse dessa parte. Gosto muito de procurar os factos reais, de consultar os documentos, procurando os buracos, os hiatos, os intervalos em que não se sabe o que aconteceu, abrindo espaços para a invenção, para a criatividade do ficcionista. Aos vinte e tal anos, eu andava fascinada com a Revolução Francesa e queria muito ler um bom romance sobre o assunto. Não o encontrando em lado nenhum, decidi escrevê-lo eu mesma.

Eis uma regra de ouro para um romancista: escrever o livro que gostaria de ler.
Exacto! Os romances que encontrava sobre a Revolução Francesa, em inglês, eram todos sobre a rainha e os aristocratas, enquanto eu queria saber coisas sobre os revolucionários. As suas histórias eram melhores, mais fortes, mais humanas. Supunha que outros leitores deviam sentir o mesmo que eu. Mas naqueles dias, finais da década de 70, a ficção histórica gozava de tão má reputação que não consegui sequer que o romance fosse lido, quanto mais publicado. Optei então por deixá-lo na gaveta, onde ficou vários anos, enquanto ia escrevendo romances contemporâneos, todos muito diferentes uns dos outros. Curiosamente, foi enquanto trabalhava em A Place of Greater Safety que tive a ideia de abordar a figura de Thomas Cromwell.

Wolf Hall podia ter sido o segundo romance?
Podia. Depois da Revolução Francesa, viriam os Tudor. Mas ainda bem que isso não aconteceu.

Porquê? Teria sido demasiado cedo?
Sim. Começar um livro é sempre um passo na escuridão, uma questão de fé. E para cada livro há um tempo certo. Felizmente, acho que soube esperar.

Quando é que compreendeu que chegara o momento do regresso à ficção histórica, quase trinta anos depois?
Digo-lhe uma coisa: o momento podia nunca ter chegado. Eu fui adiando, adiando, adiando. Até que, por volta de 2004, apercebi-me que se aproximava uma efeméride importante em 2009: os 500 anos da subida ao trono de Henrique VIII. Era inevitável que o mundo cultural britânico se virasse para a evocação do rei. Henrique VIII estaria em todo o lado: na imprensa, nos museus, nas livrarias. Se havia um tempo para escrever o livro sobre Cromwell, era aquele. Ou aproveitava a ocasião, ou mais valia esquecer o assunto.

Foi um bom antídoto para a procrastinação?
Sem dúvida. Na altura, assinei contrato para dois livros. O sobre Thomas Cromwell e um romance contemporâneo, passado em África. Comecei pelo de temática africana, mas ao fim de poucas semanas tinha os nervos em frangalhos, pesadelos, um sentimento de angústia permanente. O livro estava a dar cabo de mim por ser tão colado à minha experiência pessoal. Um amigo disse-me: aceita-se que fiques assim quando terminas um livro, não quando começas. Decidi por isso interromper o projecto e experimentar escrever o primeiro capítulo do livro de Cromwell, a ver no que dava. E o que aconteceu foi um estado de felicidade instantânea. Um daqueles momentos mágicos, em que sentimos as luzes a acenderem-se.

Já tinha a investigação feita?
Andava a ler sobre o assunto há uns dois anos, mas ainda tinha muito que investigar. Por isso fiz só o capítulo inicial, que de certo modo está fora da História, porque a infância de Cromwell não é mencionada nas crónicas. Sabe-se pouco sobre essa fase da sua vida, o que me deu muita liberdade. Wolf Hall começa com Cromwell em criança, caído no chão, espancado pelo pai, pensando que está a momentos de morrer. Então levanta-se, afasta-se, segue o seu caminho e reinventa-se. Sai do país, deixa para trás a sua religião, a família, a língua materna, e começa a jornada da sua vida. É o tipo de história que sempre me atraiu.

Como é que chegou a um estilo a que toda a gente reconhece uma grande clareza e precisão, reflectindo o tom da época mas sem forçar a nota?
Tem parcialmente a ver com a escolha de certas palavras, mas sobretudo com o ritmo. É essencial que o leitor não se esqueça que estamos a falar de outro tempo, por isso lanço aqui e ali uma palavra pouco usual, algum vocabulário quinhentista, mas sem exagerar. Não quero que o leitor sinta necessidade de pousar o livro para ir ao dicionário.

Leu autores da época para compreender e apreender esses ritmos?
Sim. Os documentos da época eram quase sempre escritos num registo muito solene, júridico, estereotipadamente oficial. Não se aprende grande coisa por aí. Mas há uma fonte contemporânea maravilhosa: a biografia do Cardeal Wolsey (mentor de Cromwell), feita por um dos seus discípulos, George Cavendish, que escrevia como um romancista. É um livro essencial. Li-o e reli-o, até incorporar os seus ritmos na minha prosa. Mas foi um processo lento. Levei alguns anos a entrar naquele mundo.

E agora tornou-se fácil imaginar como eram as coisas há quase cinco séculos?
Agora sinto-me em casa. Fecho os olhos e o que ouço? Badaladas do sino da igreja, um relâmpago, nada mais sonoro do que isto. A não ser que esteja num campo de batalha, onde ressoam os tiros de canhão. Os nossos sentidos vão-se moldando ao que escrevemos.

O terceiro livro vai ser mais fácil ou mais difícil do que os outros?
Mais difícil. Porque terá de integrar os dois primeiros. Chamar-se-á O Espelho e a Luz porque iluminará, espero, tudo o que foi contado antes. Aborda o processo da História. O passado atrás de nós vai mudando, não é estático. Para Cromwell, é também sobre os trabalhos da memória.

No fim de Bring Up the Bodies ele dá a entender isso, quando diz que durante o dia só pensa no futuro, mas à noite é assediado pelas recordações do passado.
É nessa altura que entram em cena os mortos. E o número de mortos vai aumentando. Os fantasmas dos que lhe foram próximos.

Já sabe como fechar a trilogia?
Sei para onde ela se dirige, mas há ainda muita coisa pelo meio por resolver. Sinto neste momento uma pressão enorme para avançar com o terceiro volume o mais rápido possível. Mas tentarei resistir. Não me posso dar ao luxo de não fazer isto bem. Até porque este projeto é o centro da minha vida de escritora.

O seu opus magnum?
Absolutamente. Em certo sentido, eu estou na posição de Cromwell. As expectativas são muito altas. Tenho tudo a perder. Por isso estou determinada a não ter pressa, a não me precipitar. O terceiro livro está lá fora, algures, e eu tenho de ser capaz de lhe dar uma forma.

Alguma estimativa para o tempo de que necessita?
Estou a apontar para 18 meses, dois anos. Gostava de o publicar em 2015.

Como é viver há oito anos com Cromwell?
Tenho uma espécie de ecrã duplo na minha cabeça, sabe. Um para a vida real, outro para a ficção que estou a escrever. Mesmo quando vou às compras ou arrumo a casa, a história dos Tudors não se interrompe na minha mente. O livro está sempre a trabalhar. E não é um processo de sentido único. Não é só o escritor que trabalha o livro. O livro também altera o escritor. Quando acaba, não se é o mesmo.

No seu caso, acha que se tornou uma pessoa melhor?
Não em termos morais (risos). Mas acho que sou uma pessoa mais forte, isso sim.

De que traços da personalidade de Cromwell se sente mais próxima? E de quais mais se afasta?
O que mais nos aproxima é a ambição. Quando era criança, eu queria ser alguém. Não necessariamente uma escritora. Mas queria conseguir algo e afastar-me do meu meio de origem. Queria cumprir o meu potencial. Nesse aspecto, identifico-me muito com Cromwell. Não me identifico com a capacidade que ele tinha de ignorar as opiniões alheias. Como outros escritores, não consigo distanciar-me do que as pessoas dizem, pensam, ou sentem. Se alguém ao meu lado se queixa de dores de cabeça, em menos de meia hora fico com uma enxaqueca. Cromwell, não. Era invulnerável. Usava uma armadura, escondia-se atrás dela.

Inveja essa capacidade?
Oh, sim! A vida seria tão mais fácil se eu tivesse a pele dura como ele.

[Entrevista publicada no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges