Jennifer Egan: “Este livro é peripatético, está sempre a deambular”

Ao quinto romance, Jennifer Egan (n. 1962) atingiu uma súbita – e para ela inesperada – consagração literária. A Visit From the Goon Squad, editado por estes dias pela Quetzal, com o título A Visita do Brutamontes, não só recebeu críticas entusiásticas na imprensa dos EUA como arrebatou, em 2011, dois dos mais cobiçados prémios a que os escritores norte-americanos podem aspirar: o National Book Critics Circle Award e o Pulitzer de Ficção. Parte da surpresa de Egan prende-se com a natureza não-linear do seu livro, uma reflexão sobre a passagem do tempo e os efeitos que provoca numa vasta galeria de personagens, com o cenário de decadência da indústria musical como pano de fundo. Em conversa telefónica, a partir da sua casa em Brooklyn, Nova Iorque, a autora, que até agora vira apenas um dos seus romances editados em Portugal (A Ruína, Saída de Emergência) explicou a génese de A Visita do Brutamontes e o seu método de trabalho, que passa pela escrita à mão das primeiras versões do texto, de forma a resgatar ideias ainda libertas do açaime da racionalidade.

Este é um livro sobre o tempo, os seus efeitos e a forma como é percepcionado por pessoas muito diferentes. O que a levou a escolher este tema, um dos mais recorrentes e difíceis de abordar em literatura?
Eu sinto que não escolhi propriamente o tema do livro. Foi ele que me escolheu a mim. Mas o interesse pela questão do tempo já existia e deve-se muito a Marcel Proust. Quando era mais nova, aí por volta dos 20 anos, tentei ler o Em Busca do Tempo Perdido, só que não consegui passar dos dois primeiros volumes. Aos vinte e poucos anos, quem é que se preocupa com a noção de tempo?

Nessa altura julgamo-nos eternos.
Sim. O tempo parecia-me um tema muito entediante. O que me atraía era o amor obsessivo, isso sim. Acontece que mais recentemente, quando andava perto dos 40 anos, voltei à obra-prima de Proust com alguns amigos escritores e desta vez li tudo até ao fim. Foi uma revelação. Comecei a pensar que de certa forma todos os romances são sobre o tempo. A passagem do tempo é sempre uma componente essencial de qualquer processo narrativo. Agora, em A Visita do Brutamontes, quis justamente fazer do tempo a questão central do livro.

Ao contrário de Proust, porém, não nos centramos no tempo de um determinado indivíduo, mas nos tempos e memórias de uma vasta galeria de personagens, que vão assumindo sucessivamente o protagonismo e a narração do romance.
Sim, é verdade. E está aí a diferença essencial. Foi uma decisão consciente. Quis evitar a nostalgia. O meu primeiro romance é muito nostálgico. É sobre pessoas que não viveram os anos 60, esses tempos míticos da cultura americana, e sentem falta dessa experiência. O problema da nostalgia é que põe o livro a olhar para trás, de um momento preciso no tempo para outro. Aliás, é o que acontece no Proust, mas nesse caso justifica-se porque o tempo histórico sobre o qual ele escreve como que o exige. No fundo, ele está a contemplar o desaparecimento do século XIX na Europa, que foi uma mudança cataclísmica, um autêntico sismo. Mas eu não quis centrar o meu livro numa só perspetiva individual.

A narrativa vai da São Francisco dos anos 70 até à Nova Iorque dos anos 2020.
Algumas das histórias projetam-se no futuro, embora isso tenha acontecido sem que eu o planeasse. Eu só quis espreitar o futuro de uma determinada personagem, o Alex, que surge logo no primeiro capítulo. A lógica do livro é a de seguir personagens periféricas, como o Alex, e entrar nas suas vidas. De início, vêmo-lo de fora e ele é uma figura razoavelmente opaca. Tive vontade de saber em que tipo de pessoa Alex se tornaria e isso só era possível projetando-o no futuro, porque ele é muito novo.

Há outras personagens sujeitas a esses vislumbres do futuro, por vezes muito curtos, quase só um lampejo.
É verdade. Mas não se pode abusar desse espreitar lá para a frente, que tem qualquer coisa de sádico. Eu cheguei ao futuro porque queria seguir Alex até à meia-idade. Quando lá cheguei, apercebi-me que fazia sentido, mas não houve um desejo inicial de escrever sobre o futuro. O que eu queria mesmo era que cada capítulo tivesse uma abordagem narrativa diferente e uma voz completamente distinta. O objetivo era que os capítulos não parecessem fazer parte do mesmo livro.

Essa intenção experimental esteve presente desde a primeira hora?
Esteve. Na verdade, eu comecei o livro sem saber que estava a escrever um livro. Comecei quase inadvertidamente. Mas assim que soube o que estava a fazer, houve uma série de regras que se estabeleceram por si mesmas.

Ficamos com a sensação de que o romance foge do seu próprio centro, contrariando as expectativas do leitor. É como se estivesse sempre a escapar de si mesmo. Também escapou à autora?
Quando eu sentia que ele estava a querer assumir uma forma mais tradicional, ou mais previsível, o meu instinto era afastar-me dessa solução. Tinha consciência de que a grande força do livro estaria nessa recusa. Se ele seguisse as vias narrativas convencionais, não teria nada que o distinguisse. Houve em mim uma reacção quase visceral contra a previsibilidade. É por isso que muitas cenas não chegam a ser descritas. O meu critério foi este: se o leitor pode imaginar por si as cenas, então não preciso de as escrever. Elas estão lá, implícitas. Não quis gastar a minha energia a repetir o que todos já lemos algures.

Não temeu que para alguns leitores essa estratégia fosse demasiado exigente?
Sim, mas todos os meus livros correm esse risco.

Existe uma complexidade no romance que se assemelha à complexidade da própria vida.
Concordo. A vida real é muito áspera, muito caótica. Podemos encontrar-lhe uma ordem, mas há sempre nisso qualquer coisa de artificial. Eu quis mostrar o esforço que fazemos para criar essa ordem. É uma questão de tentativa e erro. Cada coisa que sai bem exige vários falhanços. Por exemplo, eu quis escrever um capítulo todo em verso, num registo épico. Não resultou porque sou péssima poeta.

Já o capítulo escrito em PowerPoint resultou às mil maravilhas.
Pois. Aí acho que me consegui safar bastante bem.

Faz sentido que uma rapariguinha de 12 anos criasse aquilo.
Sim. O facto de ela ter 12 anos é determinante. Esse é um capítulo que eu não poderia ter escrito de outra maneira. É muito sentimental, arriscava-se a ficar piroso. Na verdade, acontece pouca coisa nesse capítulo, a situação ficcional é bastante estática, por isso o PowerPoint, com as suas descontinuidades, adequa-se. Em prosa convencional, aquela história familiar não seria interessante para mim.

É verdade que escreve à mão?
É. Mas só os textos literários. Para o jornalismo, utilizo o computador. A questão é que o bom material é aquele que me chega do inconsciente. Por isso, o meu processo criativo é todo direcionado para permitir que o inconsciente tome o controlo das operações, porque ele trabalha melhor. A minha caligrafia é quase ilegível e nunca sei bem o que estou a escrever, o que funciona para mim. Depois, faço muitas, mas mesmo muitas, versões do livro. Porque ao escrever deste modo quase automático, a maior parte do que sai é mau.

Acaba por ser um processo lento?
Não. Eu escrevo muito depressa. Levo é uma eternidade a rever. Na verdade, demoro vários anos a escrever um livro. Ando às voltas, às voltas, às voltas. Seria mais rápido se fosse capaz de escrever diretamente no computador, mas não consigo.

Durante esses anos, nunca se cansa do livro, nunca se farta das personagens?
Claro que sim. Isso faz parte. Não aconteceu tanto neste livro, porque ele tem uma espécie de qualidade peripatética, está sempre a deambular e nunca fica muito tempo com cada personagem. Por isso não me fartei delas. A questão da fadiga pôs-se mais com outros livros. Todos os meus romances acabam por ter muitas personagens e relações complexas entre elas. Parte do meu método consiste em evitar esse cansaço.

O processo moroso da revisão dá-lhe prazer ou é só uma tortura?
Não, não é tortura nenhuma. Adoro fazer isto. Se estiver a correr bem, não há nada no mundo que seja mais divertido. Mas se não estiver a correr bem, pode ser um inferno.

A Visita do Brutamontes tem uma parte A e uma parte B, com 13 capítulos que funcionam como unidades autónomas. É como se fossem canções a ocupar os dois lados de um velho disco de vinil, não é?
Absolutamente. De início, não tive essa noção, mas aos poucos o romance ganhou essa forma: a de um álbum conceptual.

Várias das personagens do livro são músicos ou produtores musicais. Que ligações é que tem a esse mundo?
Para ser franca, nenhumas. Nunca me envolvi nesses domínios. Como jornalista, sempre me interessei pela indústria musical, mas nunca tive oportunidade de fazer um trabalho de fundo sobre o assunto. Quando escrevi o segundo capítulo, centrado no Bennie e na sua difícil transição do analógico para o digital, tive de passar muito tempo ao telefone com pessoas do meio, só para compreender aquilo de que estava a falar. Nessas conversas, apercebi-me do modo radical como este negócio mudou e de como essa mudança se tornou irreparável. Mas a música atravessa o romance de outras maneiras. Todos sabemos que a música nos transporta para o passado, como quase mais nada consegue. É uma espécie de máquina do tempo. Quando oiço músicas antigas no meu iPod, estou sempre a confrontar-me com as memórias que a elas ficaram associadas.

Sendo este um romance nova-iorquino, é interessante verificar que surgem várias referências ao 11 de Setembro, embora o ataque às torres gémeas nunca seja explicitamente mencionado.
Porque é assim que as coisas se passam em Nova Iorque. As pessoas já não trazem esse tema para a conversa. É estranho. Às vezes, com alguém de fora da cidade, podem falar disso. Mas quando nos perguntam onde estávamos no 11 de Setembro, isso causa-nos um grande desconforto. Não é um assunto de que falemos em conversas normais, embora esteja sempre lá, nunca deixe de estar presente. É impossível esquecer uma coisa daquelas.

Estava em Nova Iorque naquele dia?
Estava. Curiosamente, o modo como a cidade funciona no livro é o modo como funciona na minha vida. É um lugar para onde as pessoas vão porque têm grandes sonhos. Ou simplesmente porque querem estar perto de pessoas com grandes sonhos. Eu mudei-me para lá quando tinha 25 anos.

No seu caso, a aventura correu bastante bem.
De início foi muito difícil, mas não me posso queixar.

O facto de ter conquistado o Pulitzer mudou alguma coisa na sua vida?
Sim e não. O que é essencial continua exatamente na mesma. Tenho dois filhos, sou casada. Mas em termos profissionais acho que mudou algumas coisas, porque consegui mais leitores para este livro do que para os outros. Neste último ano, passei muito tempo a tentar explorar ao máximo a oportunidade. Estou nisto há tempo suficiente para saber como é raro conseguir este tipo de sorte. E a probabilidade de voltar a acontecer é zero.

Já está a trabalhar noutro romance?
Sim, mas muito lentamente.

Sente pressão?
Como assim pressão? Eu ganhei o Pulitzer, já não preciso de provar nada a ninguém. (Risos) Mas sei que o próximo livro não vai ser amado como este foi, porque estas coisas nunca acontecem duas vezes. Além disso, os meus livros são sempre muito diferentes uns dos outros, pelo que os leitores tendem a ficar desiludidos. O meu romance anterior, por exemplo, era um thriller gótico (A Ruína) e os leitores de thrillers góticos adoraram-no. Quando leram este, ficaram furiosos: «Mas que raio vem a ser isto? Onde é que está o castelo?» Já estou habituada.

O que pensa da literatura norte-americana dos nossos dias?
Sinceramente, não me cabe fazer essa análise. Eu admiro vários escritores contemporâneos mas não penso muito no que eles estão a fazer. Gosto de ler coisas boas, mas a mim interessa-me fazer coisas que não sejam como as que eu já li. Eu e o Jonathan Franzen, por exemplo, temos muito em comum. Somos da mesma geração, crescemos no Midwest, temos algumas preocupações semelhantes. Mas, embora o considere muito bom escritor, não creio que o meu trabalho tenha alguma coisa a ver com o dele.

Como é que vê o futuro do mundo da publicação e do livro, na era digital?
Para mim, o debate sobre se os e-books são bons ou maus é ridículo. Eles estão aí e vieram para ficar. Podemos queixarmo-nos, mas não podemos impedir que as pessoas os leiam. E dar sermões às pessoas nunca altera o que elas fazem. Dito isto, preocupam-me assuntos relacionados com estes. Como a pirataria. Se as pessoas começarem a fazer downloads à borla, teremos um grande problema. Veja-se o que aconteceu à indústria da música. A questão é saber de que forma o mundo editorial vai sobreviver a estas mudanças. A Amazon, por exemplo, pretende publicar livros directamente e eliminar o editor. Há bons argumentos a sustentar essa vontade, mas eu acho que ficaríamos a perder muito sem a figura do editor. Na verdade, esses não são os meus problemas. O meu trabalho é escrever bons livros. Enquanto as pessoas continuarem a ler livros, eu terei trabalho. E o meu trabalho é fazer livros que as pessoas não consigam deixar de ler.

A incerteza do que aí vem é um desafio para os escritores?
Exactamente. Em vez de nos perdermos em medos e queixas, devíamos assumir a nossa responsabilidade. Se um livro for realmente bom, e puxar as pessoas lá para dentro, e for relevante para a vida dos leitores, sobreviverá. Acho que a minha energia deve ser gasta nisso, em fazer os melhores livros possíveis, em vez de maldizer tendências culturais que estão em curso e ninguém vai conseguir alterar.

[Entrevista publicada no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

2 Responses to “Jennifer Egan: “Este livro é peripatético, está sempre a deambular””

  1. Ricardo Assis on Abril 23rd, 2012 19:09

    Boa entrevista. Acabei o livro no Sábado e acabo hoje ou amanhã A Ruína. Há uma semana nem sabia quem era Jennifer Egan… passarei a leitor assíduo.

  2. A tua crítica é melhor do que a minha « Senhoras da nossa idade on Abril 30th, 2012 14:34

    […] do Pulitzer 2011, é sobre o Tempo. É ele o brutamontes do título. Sobre isso diz a autora em entrevista ao […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges