João Ricardo Pedro: “Nunca percebo o que faz mover o quê no livro, se são as frases a construir a história, se é ao contrário”

Há qualquer coisa de exemplar nesta história. Formado em Engenharia Electrotécnica, João Ricardo Pedro (n. 1973) trabalhou durante mais de uma década numa empresa de telecomunicações, embora sem aplicar «as admiráveis equações de Maxwell», como explica na sua curta nota biográfica. Paralelamente, desenvolveu um gosto pela leitura que se tornou obsessivo. Quando saiu a tradução de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, feita por Pedro Tamen, leu os volumes todos de enfiada. E ficou-lhe o fascínio pela frase enquanto unidade narrativa. A leitura despertou ainda o desejo de escrever e a certeza de que seria capaz de acabar um livro, se a isso se dedicasse.
Quando a empresa em que trabalhava o despediu, abriu-se uma janela de oportunidade. Desempregado, com o tempo por sua conta, inventou uma rotina de escrita. Sem ajudas de qualquer tipo, experimentando por si mesmo, arregaçou as mangas e atirou-se às teclas do computador. Nos primeiros meses, procurou um estilo, uma voz. Depois, começou a dar corpo a um novelo mais ou menos caótico de histórias, quase todas deixadas em aberto. Ao aperceber-se de que poderia concorrer ao Prémio LeYa, acelerou o processo de desbaste e reduziu as mais de mil páginas do seu manuscrito proliferante a cerca de duzentas. Nunca mostrando o texto a ninguém, enviou o livro para o concurso, um pouco às cegas mas confiante no valor literário da obra de estreia.
No final de 2011, chegou a boa nova. O Teu Rosto Será o Último foi o romance escolhido pelo júri do mais valioso prémio literário português – de que fazem parte, entre outros, Manuel Alegre, Nuno Júdice, Pepetela e José Castello. Quando receber o cheque de cem mil euros, João Ricardo Pedro vai sentir um «conforto» financeiro que lhe permitirá dedicar-se à escrita durante uns anos. «A minha mulher é economista e conto com ela para gerir bem o dinheiro», assume num tom desprendido. Quanto à projecção mediática associada ao prémio, ainda lhe faz alguma «confusão», porque «há livros muito melhores do que o meu que não tiveram esta sorte».
O Teu Rosto Será o Último, com chancela da LeYa, é posto à venda no dia 31 de Março. Será depois editado no Brasil, em Angola e em Moçambique.

Em 1975, quando foi demitido da direção do Diário de Notícias, José Saramago decidiu não procurar trabalho e dedicar-se a tempo inteiro à literatura. De certa forma, o desemprego empurrou-o para a descoberta do seu estilo, no romance Levantado do Chão, e deu-lhe o impulso para uma carreira literária tardia. Salvaguardadas as devidas distâncias, ter perdido o emprego foi o seu momento saramaguiano?
Essa comparação é muito honrosa para mim. Na verdade, acho que foi um desses «azares da vida» (como diz o Celestino, uma das minhas personagens) que depois descobrimos ser um instante de sorte, uma oportunidade que se abre, inesperada e irónica. Eu lia muito e a partir de uma dada altura, por volta dos vinte anos, fiquei com a ideia de que era capaz de escrever. Ao ler os livros dos outros, sentia que se quisesse muito, se me dispusesse a isso, também conseguiria fazer aquilo. Depois, a ideia tornou-se quase uma obsessão. Mas com a minha vida familiar e profissional era impossível. Há pessoas que conseguem chegar à noite, depois de um dia de trabalho, e ter disponibilidade para a escrita. Eu não conseguia essa disciplina.

Chegou a procurar trabalho?
Não. A escrita aconteceu logo, de uma forma súbita. No primeiro dia sem emprego, levei os filhos à escola, voltei para casa, fiz as camas, essas coisas todas. Havia no ar aquele vazio do «e agora?» Então, liguei o computador, abri um ficheiro de Word e comecei a escrever. Uma coisa em bruto, seis horas por dia. Desse primeiro material, não se aproveitou nada. O que está no livro começou a surgir ao fim de sete, oito meses. E só no final do primeiro ano é que me apercebi, aos poucos, do que estava a fazer.

Nunca tinha escrito ficção antes?
Nem ficção nem poesia, nem outra coisa qualquer. Absolutamente nada. Nem sequer tive um blogue. Fui aprender tudo.

Começou da estaca zero?
Sim. O primeiro problema foi: eu não sei fazer isto. Ignorava as coisas mais simples. Como descrever um tipo que desce as escadas. Como pôr de repente um homem a falar com outro. Comecei aí uma aprendizagem autodidacta. Relia os meus escritores preferidos para ver como é que eles faziam, como é que eles resolviam as situações. O José Cardoso Pires, por exemplo, foi fundamental. Aprendi muito com ele. Mas escrevia sozinho, só para mim. Ninguém acompanhou o processo de criação. Avancei voluntariamente desamparado.

Nunca mostrou o que ia fazendo a ninguém?
Nunca. É mais uma questão de feitio do que de orgulho. Ainda hoje é para mim difícil saber que alguém está a ler o livro. A minha mulher só o leu depois de ter sido enviado para o concurso da LeYa. E mesmo assim foi doloroso, o ela estar ali ao meu lado, a ler aquilo.

Confiava no valor literário do romance?
Sim, caso contrário não o sujeitaria ao concurso. Tinha aliás o pressentimento de que poderia ganhar. Um pressentimento estúpido, porque não fazia a mínima ideia da qualidade dos outros concorrentes. É absurdo, eu sei, mas convenci-me de que poderia perfeitamente ganhar.

Quais foram as principais dificuldades?
O mais difícil foi descobrir o meu tom, a minha voz. Eu ia pôr os filhos na escola, chegava a casa às oito e meia e ficava até às quatro e meia a escrever, com uma hora de intervalo para o almoço. Fui avançando de forma um bocado caótica, até perceber que tinha de dar uma certa unidade àquilo. Então cortei muito, fiz desaparecer algumas das personagens e reduzi mais de mil páginas a trezentas e tal. No fim, ficaram cerca de duzentas. O principal trabalho de edição foi esse: tirar, tirar, tirar. A dada altura, tive a sensação de que poderia ficar a escrever este livro para sempre. Quando é que isto acaba? O prémio foi bom também nesse sentido. Impôs-me uma data limite. Acelerou o processo final de lapidação.

O livro começa, certamente não por acaso, no dia 25 de Abril de 1974.
Foi simbólico. Essa decisão surgiu já a meio do livro. Os meus avós são da província e uma coisa que sempre me impressionou foi o afastamento das pessoas em relação ao que se passava no país. No primeiro capítulo isso é evidente. Quando pensamos no 25 de Abril, pensamos numa coisa extraordinária que aconteceu ao país, mas esquecemos que houve muita gente para quem aquilo passou completamente ao lado. Interessava-me tudo o que aconteceu a seguir à revolução mas também o que estava para trás. O meu pai andou na Guerra Colonial, todos os meus tios andaram, toda a minha infância foi vivida a ouvir aquelas histórias.


Foto: DN

Como é que alguém nascido em 1973, quando a guerra estava a acabar, aborda esse tema?
É evidente que não podia falar de experiência própria. Só pude falar do que me contaram. O episódio mais forte que aparece no livro, com o Spínola, é completamente inventado. O Spínola interessa-me enquanto personagem complexo da História, um homem cheio de contradições, com uma força hollywoodesca.

Duarte, a personagem principal de O Teu Rosto Será o Último, é pianista. Qual a importância da música na estrutura do romance?
A música é absolutamente essencial. Durante o processo de escrita, não parei de ouvir as 32 sonatas para piano do Beethoven, na interpretação do Alfred Brendel. São sonatas em que se nota claramente a evolução estética do compositor: nas primeiras, está muito próximo de Mozart e de Haydn; mas nas três últimas é já outra coisa, estilhaça a forma da sonata, tem andamentos muito longos e outros curtos, com finais abruptos. No meu livro acontece algo de semelhante. Os primeiros capítulos são mais convencionais, os últimos são muito mais livres. Quis que o leitor se sentisse à beira de uma falésia escarpada.

Quase todos os capítulos são construídos em torno de cenas fortes, violentas, com uma grande carga dramática. Como se o narrador procurasse, na vida das personagens, apenas os momentos de maior intensidade.
Precisamente. É claro que as personagens viveram outras coisas, entre esses momentos de maior intensidade, mas essas coisas não me interessam. Nesse sentido, o romance assemelha-se ao resumo de um jogo de futebol em que apenas são mostrados os golos. Os passes para o lado, as bolas que vão fora, não quis nada disso.

Há um cuidado muito grande na forma como são nomeadas as personagens. O doutor Augusto Mendes, médico, nunca deixa de ser doutor, mesmo no espaço da intimidade familiar. Mas há um inspector Artur Monteiro que de repente volta a ser o soldado Monteiro, e essa inflexão muda tudo.
Fico contente que se tenha apercebido dessa transformação. Ela dá-nos as várias faces de uma pessoa no tempo. Artur Monteiro foi soldado, agora é inspector, mas a qualquer momento volta a ser soldado outra vez.

Como é que lhe surgem estes artifícios literários?
Não sei. São acasos. São milagres. Quando acontecem, até me vêm as lágrimas aos olhos. Fico com a ideia de que as mãos trabalham sozinhas, como as do Duarte quando toca piano. Não consigo compreender de onde é que aquilo aparece. São os mistérios da criação. Nunca percebo o que faz mover o quê. Se é a linguagem e as frases a construirem a história, se é ao contrário.

Uma das ideias fortes que atravessam o livro é a da orfandade, tanto individual como coletiva.
Sim. Há a orfandade do protagonista, há a orfandade da mãe, mas igualmente a orfandade em relação a certos ideais da esquerda, a orfandade provocada pelo fim do comunismo na União Soviética, por exemplo.

Fim que é relatado simbolicamente, por via da derrota da selecção da URSS na final do Campeonato da Europa de Futebol de 1988, contra a Holanda.
Lembro-me perfeitamente desse dia. Em casa dos meus pais, estavam uns homens a pintar as paredes. Eram comunistas. Quando o jogo acabou, ficaram tristíssimos, pouco faltou para começarem a chorar. Acho que o fim da União Soviética teve um impacto muito forte numa parte da população e eu quis mostrar esse impacto.

O romance tem uma clara dimensão política.
Sim. Num dos últimos capítulos, duas personagens assistem pela televisão à tomada de posse do governo de Cavaco Silva, no início dos anos 90. E aí refreei-me. Não quis vincar demasiado a ideia de que terminavam ali as ilusões criadas no período revolucionário. Mas a ideia está lá, implícita, e espero que os leitores a compreendam. Quem escreveu este livro tem um pensamento político. E uma leitura atenta acaba por discernir esse pensamento.

Na versão impressa, o livro segue as regras do Acordo Ortográfico. Já o escreveu assim?
Não. E a editora pôs-me completamente à vontade. Se eu quisesse, podia manter a grafia antiga. Mas é daqueles assuntos sobre os quais não tenho opinião formada. Pode parecer estranho, isto de alguém escrever um livro e não ter uma posição definida sobre este assunto, mas é o meu caso.

Daqui a dez anos, imagina-se a viver como escritor?
Não sei. Neste momento, só sei que quero escrever pelo menos mais um livro. E isso para mim é suficiente. Não tenho a ambição de ser escritor. Enquanto me apetecer fazer isto, faço. Enquanto tiver este impulso, continuo. Quando me fartar, parto para outra. Monto um quiosque, sei lá. Qualquer coisa.

[Entrevista publicada no suplemento Actual do jornal Expresso]



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