Mia Couto: “Eu só me sinto vivo se estiver inventando a minha própria vida”

Em 2008, a vila de Palma, na província de Cabo Delgado (norte de Moçambique), foi assolada por uma série de ataques de leões «assassinos». Em poucos meses, contavam-se mais de duas dezenas de vítimas humanas. Na altura, a empresa petrolífera para a qual o escritor Mia Couto trabalha, como biólogo, tinha quinze oficiais ambientais a fazer trabalho de campo na região, dormindo em tendas de campanha no meio do mato e circulando a pé, o que os tornava alvos potenciais dos felinos. Para resolver definitivamente o problema, foram enviados para Palma dois caçadores experientes, mas mesmo eles só conseguiram eliminar as feras após semanas de «frustração e terror». Várias vezes lhes foi sugerido pelos habitantes locais que, se os responsáveis pelas mortes eram leões, não seriam leões de carne e osso, antes leões «fabricados», criaturas do «mundo invisível», onde «a espingarda e a bala perdem toda a eficácia».
Mia Couto acompanhou de perto o drama das mortes violentas, com o seu rasto de medo, e soube logo ali que tinha de escrever um livro a contar, com os instrumentos da ficção, esta história fortíssima. No termo de um processo criativo complexo, em que se sucederam as versões, o escritor dá finalmente a conhecer o resultado de um trabalho que lhe tomou mais de três anos: A Confissão da Leoa, romance editado em Portugal pela Caminho. Em frente ao Tejo, numa esplanada protegida de um vento inusitadamente frio para uma tarde de Abril, Mia Couto falou-nos do livro e das suas circunstâncias. Antes, deixou-se fotografar no pequeno jardim tropical que fica numa das extremidades do Parque das Nações. Uma eritrina, ou árvore-coral, exibia as suas deslumbrantes flores vermelhas, mas foi junto das suas «amigas» palmeiras que se aconchegou. «Aqui sinto-me bem, quase em casa», confessou o escritor-biólogo no meio das espécies botânicas africanas, ele que em Portugal diz ser incapaz de «falar» com as árvores, «porque não sei os seus nomes».

Ao ler a nota introdutória a este romance, com a explicação dos factos reais que o inspiraram, encontramos uma daquelas situações que parecem exigir um ficcionista que as transforme em literatura. Foi isso que aconteceu? A história impôs-se ao escritor Mia Couto?
Sim. Foi uma história que se impôs. Mas também foi uma história que eu senti que era perigosa. Primeiro, porque a realidade de que partia era tão forte que condicionava muito a forma de a contar. Depois, porque caminhava muito pelos grandes estereótipos associados a África: os caçadores, os caçados, os leões, as crenças, os elementos mágicos, etc. Queria fugir a isso, queria esquivar-me a esse retrato mais imediato, contornar essa abordagem mais óbvia. Eu estava lá quando aconteceu o primeiro dos casos. Vieram acordar-me a dizer: «está ali um homem que foi morto esta noite por leões». Aquilo despertou logo em mim o primeiro grande medo que nos percorre enquanto espécie: o de sermos devorados. Quando chegaram os caçadores para abater os leões, vinha entre eles um amigo meu, que também escreve. Ele disse-me: «Essa história quem a vai escrever sou eu, porque eu é que sou o caçador.»

É aí que nasce um dos principais conflitos que atravessam o romance, entre a personagem do caçador e a personagem do escritor?
Sim. Isso surgiu assim na realidade. Mas houve outros elementos que me permitiram fugir dos estereótipos do exotismo africano, uma coisa já muito vista. O meu convívio próximo com a realidade do lugar permitiu-me escrever uma história que não é exactamente sobre a caça, e menos ainda sobre essa visão folclórica de África. Eu tive de ganhar um certo grau de intimidade com os habitantes daquela região, de maneira a perceber os nomes, as histórias que estavam por trás da aparência das coisas, e aí percebi que eram sobretudo histórias de mulheres que me pediam para ser contadas.

Mulheres que foram as principais vítimas dos leões.
Efectivamente, foram elas. Dos 26 ataques resultou uma única vítima masculina. As mulheres são mais vulneráveis, pela própria natureza das suas actividades: ir buscar água, etc. E o tal caçador meu amigo, Sérgio Veiga, gostava de apontar para um grupo de pessoas e dizer: «se tu fosses leão, quem é que escolhias para atacar?» O leão é um animal que percebe imediatamente qual a presa mais fraca. E os homens caminham com paus nas mãos, com catanas, transmitem a imagem de alguém pronto para o confronto. Pela maneira de andar, pela postura, as mulheres revelam-se mais frágeis e por isso tornam-se vítimas preferenciais.

Quando é que percebeu que já podia contar esta história?
De início, senti que tinha de a travar, ela precisava de tempo para ganhar a forma certa. Comecei-a em 2009 e só três anos depois é que a conclui. Houve várias versões. Numa delas, por exemplo, em vez de dois, havia três narradores. O terceiro era o escritor, sempre deslocado e a sentir a angústia de não pertencer àquele lugar. Uma angústia que era um bocadinho a minha, enquanto estive lá. Há cerca de um ano, compreendi que havia um outro livro dentro deste livro e tive de o separar. Fiz ali um trabalho de cirurgia. Aquela é uma história diferente, com outras personagens.

Tenciona publicá-la mais tarde?
Não sei ainda. Isto é justamente como na caça. Há aquele momento que é irrepetível. O momento em que nos apercebemos de que o animal está ali, à nossa mercê. Se não o aproveitamos, o animal foge.

Depois é difícil voltar a tê-lo na mira?
Impossível. Não acontece mais. Às vezes, alguns amigos, ou o editor, dizem-me para pegar naquelas personagens, naquelas situações, mas eu não consigo. Elas tiveram o seu momento e o momento passou.

O caçador dispara várias vezes para acertar uma. O escritor também tem de falhar muito para acertar?
Claro. Todo o escritor é um reescritor. Só nesse apuramento sucessivo é que ele vai encontrar a frase certa. Tal e qual o exercício da pontaria.

Às tantas, no livro, alguém diz que é preciso mais coragem para escrever do que para caçar.
Na escrita também nos colocamos numa situação de grande exposição, estamos ali de peito aberto. De repente, pomos à vista as nossas feras interiores, os nossos fantasmas.

Kulumani, a localidade onde decorre a acção, é uma espécie de paradigma da aldeia africana, um lugar fechado, «atrofiado pelo medo», onde «tudo está treinado para morder».
Ao descrever a aldeia de Kulumani quis sobretudo contrariar a imagem romântica de África enquanto lugar onde é possível uma harmonia perfeita, a imagem idílica das aldeias em que as pessoas cooperam umas com as outras. Na verdade, ali acontece o que acontece em qualquer lugar do mundo. Invejas, maledicências, traições, violência, todos os cambiantes da maldade humana. Aliás, os conflitos internos existiram sempre, mesmo antes da chegada dos ocidentais. E esses conflitos até são saudáveis, fazem mover a sociedade.

As histórias de amor que aparecem no livro são muito fugidias. Nascem de contactos mínimos entre as personagens.
Isso é porque elas acontecem num contexto em que o amor não está previsto, em que não há tempo para o amor. Em sociedades focadas na luta pela subsistência, o amor é um estorvo. As paixões realizam-se mais no plano do sonho, da ilusão.

Este romance começa por parecer uma história aventurosa sobre leões, verdadeiros ou imaginários, mas acaba por ser muito mais um romance sobre a condição das mulheres.
Sem dúvida. É essa no fundo a história que eu quis contar. Hoje em Moçambique há um assunto não resolvido entre homens e mulheres. Os homens têm medo de perder a hegemonia e não compreendem uma certa lógica que se faz do murmúrio, do silêncio, que é a lógica feminina.

São vários os momentos em que assistimos à violência masculina exercida sobre as mulheres. Num deles, particularmente brutal, uma rapariga é violada por um grupo de homens que ficam impunes.
Essa história também é verdadeira, li-a num jornal. O que é mais triste é que algumas das vítimas dessa violência sistemática – e mais do que sistemática, sistémica (porque é um sistema que a induz) – são levadas a considerar-se culpadas, como se fosse aquele o seu destino, permitindo a impunidade dos homens.

Será que as pessoas que viveram a história real vão receber bem o livro?
É uma boa pergunta. A maior parte daquelas pessoas não lêem. Grande parte delas nem sequer fala português. Mas eu quero que a minha história chegue até elas, quero explicar-lhes como a contei.

Já voltou à região?
Voltei quando tinha a história arrumada na minha cabeça. Mas não disse nada às pessoas. Elas pensam que eu ainda estou a escrever o livro. É muito curiosa a relação que têm comigo. Autorizaram-me a espreitar aspectos mais íntimos da vida da comunidade e isso obriga-me a ter um respeito enorme. Não posso trair a confiança delas. Vou ter de explicar que esta história é só minha. Construí uma história que não é um relato, não é uma obra de testemunho. Não é a história que lhes aconteceu, é a minha história.

Terminar um romance de gestação tão difícil trouxe-lhe alguma espécie de alívio?
Talvez tenha havido alívio, mas um alívio triste.

Triste porquê?
Eu vivi ali. Por isso, há uma parte de mim que termina quando termina a história. Sei que estou a romantizar o assunto, sei que isto é ilusório, mas de alguma forma eu sinto que não sou o autor do livro, que apenas transcrevo e a minha mão é usada para dar expressão a outras vozes. Agora, há qualquer outra coisa que eu tenho de procurar, porque isto é um vício. Eu só me sinto vivo se estiver inventando a minha própria vida.

Não há nenhuma narrativa a que gostasse de se agarrar já a seguir?
Talvez aquela que saltou deste livro. Provavelmente tem força para me desafiar. Ela já chamou por mim. Ainda está muito presente. Mas vou ter de alterá-la profundamente para ter um convívio de surpresa com ela. Eu tenho de ser surpreendido pela história.

E assim que isso aconteça, a escrita pode começar.
Sim. Mas se não acontecer, se este for o meu último livro, tudo bem. É porque se calhar estou a ser feliz fazendo outras coisas.

[Entrevista publicada no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “Mia Couto: “Eu só me sinto vivo se estiver inventando a minha própria vida””

  1. Octávio dos Santos on Maio 14th, 2012 15:38

    Acabei de ler recentemente «Estórias Abensonhadas», e gostei muito. É pena que, neste seu mais recente romance, ele tenha capitulado perante o «aborto ortográfico». Obviamente, não o vou comprar nem ler.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges