Olivier Rolin: “É a matéria da escrita que me impõe a sua forma”

Quando escreveu Suite no Hotel Crystal, em 2004, Olivier Rolin imaginou o seu suicídio no quarto 1123 do Hotel Apcheron, em Baku, no ano de 2009, com uma bala de 9mm disparada por uma pistola Makarov. Como alguns amigos levaram a sério o jogo ficcional e o aconselharam a evitar a capital do Azerbaijão no ano fatídico, o escritor francês fez questão de ignorar esses avisos e instalou-se precisamente em Baku, durante um mês, numa espécie de desafio à morte. Quando regressou a Paris, vivíssimo, trazia na bagagem o esboço de Baku – Últimos Dias, um magnífico livro inclassificável (agora editado pela Sextante).

Ir a Baku, o suposto palco anunciado da sua morte, foi uma forma de testar o poder profético da literatura?
Em parte foi. Eu li um ensaio de Pierre Bayard, Demain est écrit (O Amanhã está Escrito), em que são apresentados vários exemplos, alguns perturbantes, de escritores que anteciparam nos seus livros o que lhes viria a acontecer mais tarde, nomeadamente as circunstâncias da morte. Na verdade, fiquei mais intrigado do que convencido. Ora, tendo escrito num romance anterior que o meu destino era morrer em Baku, no ano 2009, parti para o Azerbaijão para desafiar literariamente a morte, mas sem pensar que ia mesmo morrer ali. É bom sublinhar que nunca tencionei suicidar-me. Todos sabemos que a nossa morte pode acontecer de um momento para o outro. E era tão provável que acontecesse ali como noutro lugar qualquer.

À chegada, descobriu que o hotel fora demolido dois meses antes, o que alterou evidentemente o rumo do jogo literário a que se tinha proposto. E se o hotel ainda estivesse de pé?
Faria o que tinha pensado. Instalava-me no quarto 1123, onde há uns anos imaginei o meu suicídio, à espera do que pudesse acontecer.

Suponho que não levava consigo uma Makarov de 9mm.
Claro que não! Mas olhe que ter acesso a uma pistola dessas, naquelas paragens, é tudo menos difícil…

O projecto do livro alterou-se muito ao constatar que o quarto 1123 já não existia?
Quase nada. Se o quarto ainda existisse, o livro não seria muito diferente. Porque o jogo com a ideia do suicídio programado foi só um pretexto. O que me interessava era falar de Baku e do mar Cáspio, dos livros escritos sobre a cidade e a sua História, das pessoas que ali vivem ou viveram.

Escolheu o ano de 2009 por alguma razão em particular?
A ideia ocorreu-me quando escrevia um livro com histórias passadas em quartos de hotel. Foi em 2004 e eu pensei que teria de ser uma data não muito distante, mas que ao mesmo tempo me deixasse algum tempo de vida, digamos assim. Um intervalo de cinco anos pareceu-me suficiente. A data da morte é uma fantasia para muitos escritores, justamente porque está fora do nosso controlo. Certa vez, pediram a Borges que falasse de si mesmo. E ele respondeu: «Que querem que vos diga? Eu quase nada sei sobre mim mesmo. Sei tão pouco que até ignoro a data da minha morte.» Saber a data da morte confere-nos uma espécie de poder.

E não é estranho ter duas mortes, a imaginária e a real?
É um luxo. Um luxo que perturba. Os escritores, enquanto fabricantes de ficções, têm essa possibilidade. Os espiões também.

Não por acaso, surgem vários espiões neste livro. Como Teague-Jones, o inglês que se envolveu na guerra civil russa, defendendo os interesses britânicos no Cáucaso. Um homem de trajetória rocambolesca, até desaparecer de circulação durante muitas décadas.
Como romancista, mas também pessoalmente, interessam-me e atraem-me as existências aventureiras, perigosas. Eu próprio tive uma fase dessas, quando era muito novo e militei na extrema-esquerda. Vivi clandestino e devo dizer que essa vida dissimulada, escondida, tem um certo encanto.

O que é este livro afinal?
Procurei que fosse um texto muito livre, algures entre o relato de viagem e o diário íntimo, com partes claramente ficcionadas (como aquela em que imagino várias alternativas para a minha morte). Às tantas digo que é um «monólogo em voz baixa» porque há elementos pessoais, apenas aflorados, que só podem ser compreendidos por quem me conhece muito bem. Acaba por ser uma confissão disfarçada, uma semi-confissão.

Como é que surgiu esta estrutura fragmentada e híbrida?
Eu creio que foi o livro que inventou a sua própria estrutura. Quando regressei a Paris com os meus cadernos cheios de notas, uns três ou quatro, a forma final impôs-se imediatamente e os blocos que compõem a narrativa coagularam assim como estão, por si mesmos, sem dificuldade, sem esforço. Para mim funciona quase sempre assim. É a matéria da escrita que me impõe a sua forma. Há um certo vagar na acumulação dos materiais, seguido de uma súbita organização espontânea.

Que estratégias usa para conhecer uma cidade desconhecida, como Baku?
Tenho sempre referências. Factos que descobri nos livros, listas de lugares onde quero ir. Começo por aí. Depois, examino os mapas. Vou sempre ver as estações de comboio e os cemitérios. Ficamos a saber muito sobre a história e a identidade de uma região pela forma como se faz o culto dos mortos.

Quem também gostava de visitar estações de comboio e cemitérios era W. G. Sebald, o escritor alemão com quem partilha uma certa aproximação literária à geografia, o prazer de refletir enquanto deambula a pé e a inclusão de fotografias no meio do texto.
É um autor que li com muito entusiasmo. Quase toda a gente destaca Austerlitz, mas eu sinto-me mais próximo de outro dos seus livros, Os Anéis de Saturno, que acaba por ser um longo passeio, simultaneamente através da paisagem inglesa e da literatura.

À semelhança do que acontece em Um Caçador de Leões, assistimos em Baku – Últimos Dias ao resgate da memória viva de alguns lugares. Será essa uma das missões do escritor?
Para mim o escritor deve salvar, no que escreve, as coisas que vão desaparecer ao mesmo tempo do que ele. Ou seja, as coisas que ele ainda viu, mas que já não serão vistas pelas pessoas que virão depois. Por exemplo, o mundo que eu conheci em criança, o mundo do pós-guerra, desapareceu totalmente. E há outras realidades prestes a seguir o mesmo caminho. O papel do escritor é evitar, na medida do possível, esse apagamento.

Neste livro faz ainda uma espécie de revisão da sua obra anterior. A proximidade da morte, mesmo se hipotética, levou-o a empreender um balanço?
Não foi intencional. Mais do que a morte, preocupava-me o desaparecimento. O que é isso de desaparecer? Se o que escrevemos não for interessante, ninguém nos lê. E se ninguém nos ler, somos esquecidos. Eu sinto muitas vezes essa ansiedade. Será que isto pode interessar às pessoas?

Há sempre o risco, como sugere a dado momento, de que todas aquelas horas debaixo de uma lâmpada, todos aqueles milhares de páginas escritas, não tenham servido para nada. É isso?
É. Todo o escritor digno desse nome tem de estar consciente de que o seu esforço pode ser em vão.

É o mínimo de humildade exigível.
Acho que sim.

[Entrevista publicada no suplemento Actual do jornal Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges