Peter Carey: “A literatura não é uma corrida de cavalos”

Poucos dias depois de saber que o seu último romance — Parrot e Olivier na América (edição portuguesa da Gradiva) — fora escolhido para a shortlist do Man Booker Prize [entretanto ganho por The Finkler Question, de Howard Jacobson], Peter Carey, o escritor australiano que vive em Nova Iorque desde 1990, respondeu por e-mail às perguntas que lhe enviámos. Embora garanta que «a literatura não é uma corrida de cavalos», Carey tem [tinha] legítimas aspirações a conseguir um feito inédito na história do mais importante dos prémios literários para a língua inglesa. Se triunfar [triunfasse] na edição deste ano, será [seria] o primeiro autor a vencer por três vezes o Booker. As duas primeiras aconteceram em 1988 (Oscar e Lucinda) e 2001 (A verdadeira história do bando de Ned Kelly).

Este romance, conforme explica na nota final, começou a ganhar forma quando leu, há alguns anos, o clássico Da Democracia na América (1835). O que é que o atraiu na abordagem feita por Alexis de Tocqueville à então muito jovem sociedade americana?
Eu li Da Democracia na América durante os anos Bush, terríveis para o mundo todo e também para a maioria dos americanos. Em Tocqueville encontrei um aristocrata francês desaparecido há muito tempo, mas que se preocupou exactamente com o mesmo problema: o funcionamento de uma sociedade obcecada pelo dinheiro e governada por um líder pouco instruído. Claro que não devemos resumir Tocqueville de forma tão linear, mas esta foi uma das razões para o meu interesse. Ele também estava preocupado com o tipo de cultura que pode desenvolver-se numa democracia capitalista. E acho que tinha bons motivos para se preocupar. Como é evidente, nunca desejei que a América se tornasse uma aristocracia ou uma monarquia. Mas pareceu-me que havia aspectos da sua argumentação que mereciam ser levados em conta. Comecei então a imaginar para ele um companheiro de viagem diferente do verdadeiro, que foi Gustave de Beaumont (um aristocrata como Tocqueville), e assim apareceu o meu Parrot. Depois, pareceu-me que o protagonista já não podia ser exactamente igual a Tocqueville e ele transformou-se noutra personagem: Olivier.

Tocqueville era um estrangeiro, como o Peter Carey foi — quando se mudou para Nova Iorque há 20 anos — e de certa maneira continua a ser. Até que ponto é que alguém vindo de fora (seja da França pós-revolucionária, seja da Austrália dos nossos dias) pode revelar mais capacidade do que os próprios americanos para compreender os EUA?
Tocqueville era muito novo, a viagem foi curta, e ele podia ser apenas mais um dos muitos visitantes que atravessaram a América fazendo julgamentos apressados. Há qualquer coisa de milagroso no facto de ele ter compreendido tanta coisa, apesar dos muitos erros que cometeu. O meu caso é um pouco diferente. Sou um homem com dois passaportes, que vive aqui há muito tempo e tem dois filhos americanos. Uma pessoa com dois mundos, pelo menos, o que me dá (espero) um ponto de vista interessante sobre o país em que vivo.

Ao longo do livro, é impossível não reparar nos paralelismos óbvios entre a época que descreve (a década de 1830) e o presente. É como se houvesse, nas observações que vai atribuindo às várias personagens, uma espécie de presciência quanto aos poderes e limites da democracia futura. Ou seja, da democracia actual.
Claro, essa é uma das ideias centrais do projecto, embora não fosse minha intenção que o leitor se apercebesse totalmente dessa presciência. A razão de Olivier ser tão snobe é só uma: duvidarmos das suas opiniões. Numa leitura ideal do livro veríamos, mas apenas nas páginas finais, até que ponto Parrot pode estar errado e o aristocrata pode estar certo. Não quis, porém, fazer disto uma discussão com um vencedor e um vencido. É antes algo de mais fluido. E no fim de contas, não o esqueçamos, é um romance. Ou seja, um mundo completamente imaginado que tem, espero eu, todos os mistérios e belezas de uma obra de arte que perdura.

O subtexto da antecipação histórica permite várias piscadelas de olho ao leitor. Como quando se profetiza que há-de chegar o dia em que a Casa Branca terá como inquilino um idiota. Ou quando um banqueiro de Nova Iorque concede crédito para a compra de uma casa a alguém que nunca conseguirá pagar o empréstimo, exactamente o que aconteceu na recentíssima crise do subprime.
Quanto ao idiota na Casa Branca, esteve comigo todos os dias durante oito anos e não posso dizer que tenha gostado de viver sob o seu governo, ou na oligarquia que ele estava a criar. De certa maneira, foi dessa experiência negativa que a ideia do livro nasceu e tive muito cuidado para que funcionasse literariamente. Eu estava a par da batalha do presidente Andrew Jackson com o First Bank of the United States e tudo isso. Contudo, o meu banqueiro ficcional não surgiu para criar um qualquer efeito de presciência, mas porque havia a necessidade de que Mathilde conseguisse dinheiro, e depressa. Como é que uma mulher solteira da sua classe social poderia obter um empréstimo em 1832? Quais seriam os motivos do banqueiro para conceder um tal empréstimo? Como é que esta prática poderia gerar lucros para o banqueiro? Eu estava, evidentemente, a inventar a crise financeira, ignorando que existiam muitos bancos e gestores de fundos de risco a fazê-lo, de forma muito mais eficiente, na vida real. A este respeito, valerá a pena reparar no dia em que o livro imaginário de Parrot começa a ser impresso. São as últimas palavras da última página: 10 de Maio de 1837 — a data em que rebentou uma bolha especulativa, provocando uma crise financeira gravíssima.

Olivier está ao mesmo tempo fascinado com o conceito de liberdade (enquanto pilar da democracia) e intrigado com os efeitos práticos da igualdade social. No fim, sobretudo após assistir a uma paradigmática parada do 4 de Julho, ele revela muitas dúvidas sobre a viabilidade daquele projeto coletivo.
Neste caso estou literalmente em dívida para com Tocqueville, que registou uma parada do 4 de Julho em Albany no mesmo tom, com muitos dos mesmos participantes e muitas das mesmas reservas quanto ao que estava a ver.

Uma das questões abordadas pelo livro é o do lugar ocupado pela cultura. Olivier defende, por exemplo, que a verdadeira arte é impossível numa democracia.
E Olivier está claramente errado. A grande arte, como desígnio, sempre foi feita nos EUA. O próprio livro — feito em Nova Iorque — desmente o argumento de Olivier. Para além de que, no que diz respeito às artes visuais, eu diria que Olivier não tem sensibilidade nenhuma. E no entanto, apesar disto tudo, ele não está completamente «errado». Se olharmos para os filmes actuais, e para os livros que nos dão a ler, e para a televisão que nos empurra colectivamente para o sono à noite, podemos questionar-nos: para que serve então a democracia? É para ter o povo a nadar num mar de trampa cultural?

Embora Olivier de Garmont seja inspirado em Tocqueville, há diferenças significativas entre os dois. Porque razão sentiu necessidade de mostrar que a sua personagem não é um mero clone de uma figura histórica?
Porque a minha personagem é chamada a fazer coisas que Tocqueville nunca fez, porque o seu carácter é definido por essas acções, porque não sou um estenógrafo nem um historiador, porque a grande ambição da minha vida é fazer qualquer coisa muito bela que nunca tenha existido antes no mundo. Dito isto, ficaria desiludido se o leitor não fosse capaz de ver, por baixo das várias camadas de ficção, talvez com luz ultra-violeta ou a raio X, o próprio Alexis de Tocqueville, nem que seja na forma como Olivier se queixa do fiambre. Espero que os pormenores enriqueçam a leitura do romance, que se aguenta perfeitamente, é preciso dizê-lo, sem todos estes detalhes de especialista.

Apesar do enorme trabalho de pesquisa, implícito na escrita do livro, nunca sentimos que a exatidão dos factos históricos seja mais importante, para si, do que a liberdade da imaginação literária.
Eu não posso discutir com o grande caudal da História. Waterloo aconteceu quando aconteceu. Porque haveria de querer mudar a data da batalha? Os costumes daquela época são estranhos e peculiares. Se eu aprender como eram esses costumes, isso tornará a história que quero contar mais rica e interessante.

Parrot, o proletário britânico que acompanha Olivier na viagem à América, está nos antípodas do aristocrata francês que ele é suposto servir e espiar. De qual dos dois se sente mais próximo?
De nenhum deles. Gosto dos dois. É um milagre que existam, tanto um como o outro.

Terminemos com boas notícias. Acaba de ser seleccionado, mais uma vez, para a shortlist do Man Booker Prize. Está confiante na vitória?
Há seis romances e cinco jurados numa sala. De que serve estar confiante?

Se ganhar, tornar-se-á o primeiro escritor a conseguir três triunfos no Booker, algo que J.M. Coetzee poderia ter alcançado em 2009, mas não alcançou. Que importância teria para si este feito?
A literatura não é uma corrida de cavalos.

E se perder, será difícil lidar com a frustração?
De maneira nenhuma. Sinto-me muito honrado. Fui escolhido para a shortlist quatro vezes. Ganhei duas. Acredite, perder em Outubro não faz disto uma experiência frustrante, o simples facto de estar aqui já é um motivo para celebração.

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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