Valter Hugo Mãe: “Eu só sei escrever coisas arriscadas”

Na génese de O Filho de Mil Homens (Alfaguara), quinto romance de Valter Hugo Mãe, houve uma frase: «Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho.» Com esta frase inicial, escrita de repente num aeroporto, surgiu do nada a figura de Crisóstomo. «Fiquei agarrado pela frase, pela ideia, pela possibilidade daquela personagem. E o primeiro capítulo surgiu durante aquelas três horas à espera do voo. O texto funciona como um conto, uma história fechada. Podia ser perfeitamente um livro para miúdos, na esteira de outros que fiz.» Já no avião, enquanto aguardava pela descolagem para ligar de novo o computador, percebeu que tinha de continuar a escrever sobre o Crisóstomo e a sua estranha energia. «Não estava preparado para o facto de as personagens me deixarem fora do livro, sozinho, enquanto elas continuavam lá dentro, juntas e felizes.»
Com sucessivos recomeços, as histórias esboçadas naquelas primeiras páginas desenvolveram-se e ganharam o corpo de um romance. «Escrevi como sempre escrevo, mas com o desafio de simplificar as coisas, tornar as ideias mais cristalinas e o livro mais sucinto.» Se o capítulo de abertura se assemelha a um conto de fadas, completamente fora da realidade, essa atmosfera contamina o resto do romance. Valter assume que estabeleceu um pacto com o protagonista, talvez a mais cândida de todas as suas personagens. «Prometi-lhe: Crisóstomo, tu vais ser feliz, custe o que custar.» E a promessa foi cumprida. «Nos livros anteriores, por mais que tivesse compaixão pelos meus heróis ou anti-heróis, por mais que quisesse dotá-los de esperança, nunca pude salvá-los da grande desgraça. Desta vez, consegui.»
Por sistema, Valter avança na narrativa sem um plano, sem uma direcção definida. «É a força das personagens e a necessidade de saber mais acerca delas que me empurra.» Em relação a Crisóstomo, porém, sentiu uma espécie de pudor. «Ele esmagou-me. É quase intocável. É o arquétipo de uma certa ideia de beleza humana, a dos seres que procuram e exercem a perfeição.» O livro defende a ideia de felicidade no seio de uma família não biológica, impossível, utópica. Não se arriscará a ser trucidado pelo cinismo dominante? «Arrisca-se, sim. Mas eu só sei escrever coisas arriscadas. Ando sempre à procura, mas nunca percebo muito bem aquilo que encontro. No fim de cada livro, tenho um impulso muito destrutivo enquanto criador. Apetece-me afogar os livros no lago. A verdade é que não sei fazer as coisas de outro modo. Quanto ao tal discurso dominante, é com gosto que me alinho na contra-corrente. Posso ser muito ingénuo, mas acho mesmo que a arte pode mudar a vida das pessoas para melhor.»
Se O Filho de Mil Homens abre uma nova fase na obra de Valter Hugo Mãe – depois da tetralogia romanesca composta por o nosso reino, de 2004; o remorso de baltazar serapião, 2006 (ao qual foi atribuído o Prémio José Saramago); o apocalipse dos trabalhadores, 2008; e a máquina de fazer espanhóis, 2010 –, esta nova fase é drasticamente assinalada por uma mudança de paradigma estilístico. A regra de escrever só em minúsculas foi abolida, tanto nos textos como no nome do escritor. «Não deixei de acreditar no que acreditava», explica Valter, «mas ficaria muito frustrado se ao fim de alguns anos, ou eventualmente no fim da minha vida, as pessoas me reduzissem ao indivíduo das minúsculas». Houve também um certo cansaço: «Em cada país onde sou publicado, obrigam-me a justificar outra vez esta minha opção, como se eu tivesse inventado a pólvora. Não inventei. Antes de mim, já outros faziam isto, do cummings ao Almeida Faria. E eu ‘roubei’ a ideia ao Al Berto. Quando sonhei ser poeta, sonhei ser como o Al Berto.»


Fotografia de Nelson d’Aires

Apesar de tudo, a decisão foi relativamente fácil. Levá-la à prática, nem por isso. «Ao princípio, pareceu-me uma coisa contra-natura. O que me sai naturalmente é escrever em caixa baixa. Aliás, ainda escrevi os primeiros três capítulos sem maiúsculas. Acrescentei-as depois, retroactivamente.» Valter está satisfeito com o caminho tomado mas não garante que seja definitivo. A poesia, por exemplo, continuará a aparecer em minúsculas: «Quando publicar, vou ser o mesmo poeta de sempre e assinarei o meu nome em caixa baixa.» Ou seja, um dia veremos livros de um Valter Hugo Mãe ficcionista ao lado dos livros do poeta valter hugo mãe. Não será isto demasiado confuso? «Pois, se calhar é. Mas eu sou mesmo assim. Um ser humano todo atrapalhado e sempre cheio de angústias quanto às minhas opções.» Com maiúsculas ou sem maiúsculas, interessa-lhe sublinhar que a escrita em si não muda. «Os primeiros leitores disseram-me até que as coisas ficam mais límpidas, mais inequívocas, mais explícitas.»
No momento em que a primeira frase de O Filho de Mil Homens se impôs a tudo o resto, Valter estava a escrever outro livro, construído em torno de uma personagem transsexual. «Hei-de voltar a essa história, mas entretanto já escangalhei aquilo tudo.» Do texto existente, com cerca de cem páginas, duas personagens foram transplantadas para o actual projecto em curso: «É uma coisa muito diferente de tudo o que já fiz. Passa-se num cenário islandês. Vai ser o meu primeiro livro a fugir manifestamente da realidade portuguesa.» Em comum com O Filho de Mil Homens, apenas a constituição de uma família improvável, «a partir da ideia ou da imagem de um filho à deriva».
Em Agosto, Valter esteve na Islândia. Precisava de se sentir «imerso naquela natureza». Tenciona voltar em Janeiro, para «perceber a violência do frio». Neste momento, vive a fase da expectativa perante as «surpresas que o livro gera» e sente-se à mercê de Atla, uma menina com quem ainda não foi capaz de estabelecer um pacto. «Não consigo dizer se ela está destinada a ser feliz, à imagem do Crisóstomo.» E o mais provável é que não esteja, já que o romance promete ser o reverso de O Filho de Mil Homens. Isto é, vai «tender para a escuridão como este tendia para a luz».

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

4 Responses to “Valter Hugo Mãe: “Eu só sei escrever coisas arriscadas””

  1. J.Urbano on Setembro 30th, 2011 16:03

    Este texto deixou-me perplexo. No fim do mesmo o livro do Valter vem classificado com três estrêlas mas de todo não se trarta de uma crítica. Talvez tudo se torne mais claro se lermos o último post do Contra Mundum sobre endogamia que tão bem caracterizam o pequenino mundo literário português.

  2. José Mário Silva on Outubro 5th, 2011 22:28

    Caro J.Urbano,

    O texto não é efectivamente uma crítica e aceito que a colocação de estrelas seja questionável. Mas as três estrelas correspondem à avaliação que eu faria numa eventual crítica. Só isso.
    Quanto à endogamia, não sei por que razão a evoca.

  3. J.Urbano on Outubro 9th, 2011 22:56

    Caro José Mário Silva

    Endogamia simplesmente porque um livro mediocro até pode merecer uma coluna crítica, agora duas páginas da Ùnica exala a promoção e conivência por todos os lados. A suposta notoridade do autor não justifica tudo e decorre de coisas que são tudo memos simpáticas. Haveria matérias literárias que seriam muito mais meritórias para esse espaço. Por exemplo, saiu numa pequena editiora esse enorme livro de Witold Gombrowicz: Ferdydurk. Mas talvez por a editora ser da terceira distrital nem uma linha apareceu, pelo menos que desse conta, no seu suplemento. Poderia também mencionar o Romance de um autor português, que me parece muito acima da média e que não mereceu até agora uma única linha de vossas exelências. Refiro-me ao livro de H.G.Cancela “De Re RVstica” (Afrontamento). Por sinal trata-se também do autor do blog Contra-Mundum, Mas nada, preferem repetir até à saciedade dois ou três nomes. São apenas sugestões para dar um melhor uso ao espaço que tem.

  4. Jair on Outubro 10th, 2011 21:44

    Não deve ter saído aqui no Brasil ainda. Mas “a máquina de fazer espanhóis” continua na boca dos leitores. Especialmente depois do sucesso que walter hugo mãe fez na última feira literária de Parati. Tinha muita leitora querendo adotá-lo por aqui…

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges