Avondo

«Ao abrir a porta, para ouvir a chuva, escapando-se por breves momentos do calor do serão, os seus olhos tingiram-se de sangue – da cor do sangue que os sanguinhos escorrem dos troncos nos anos felizes. E de Tâmara começaram a cair memórias do ano que passara…

Eulípio, seu marido, a chegar a meio dos setenta anos, arrumava a carqueja de acender o lume, sobrara um bocadinho, a um canto da chaminé, tomando devagar conta de um grosso tronco de azinho, teria avondo para o serão, levantou os olhos para Tâmara, sua mulher, em estado de espanto, mas um estado de espanto natural. Queria ouvir cair as memórias, como agora podia ouvir cair a chuva. Ele que tanto gostava de ouvir a chuva a bater nas telhas…

Betuma, solteirão, homem dessas idades de Eulípio, atracado a umas pedras antigas, encontradas numas escavações, feitas a poder de braços e a pedido da sua tia Ágara, mulher viúva, quase da idade da pedra, que sonhava com iludidos tesouros, arrastou a cadeira até ficar, por pouco, dentro do lume. Depois, juntou os pés em cima de alguma cinza e preparou o corpo em cómodos convenientes no assento da cadeira (mais alta do que a das mulheres) para ouvir aquilo que lhe ia por dentro da sua terra, que era o mesmo que aquilo que lhe ia por dentro de si, e sentou o olhar em Tâmara. Ele que tanto pisara a dor no ano que passara, ele que tanto se metera à vereda, que calcorreara terrenos a direito, terrenos a subir, a procurar em vão estevas, pampilhos, sargaços, margaças, carrasqueiros, medronheiros, lentiscos, adernos, tojos, alecrim, rosmaninho. De quando em vez, lá lhe apareceram roselas. Folhas de roselas, pouco feitas, a lembrar as de hortelã, em terreno seco, ainda serviram para alguma coisa…

Ágara, a velha mais velha daquele monte, não demoraria muito para chegar aos cento e oito anos de vida, findos os lamúrios – como em todos os serões que ainda se faziam no monte dos Esquecidos de Cima à roda do lume – de que queria morrer, de que já bastava o tempo, de que já cá não estava a fazer nada (conversa fiada, isso lhe atentavam todos nas manhas e na saúde), acartou os olhos para junto dos de Tâmara, carregada com tão vasta genica que era ela muito superior à que lhe escasseava agora para acartar os cântaros de água do poço até à sua casa; mas ai de alguém que lhe viesse tentar acalmar o peso e a estafa. Se calhar, era mais certo uns moitanitos de sal a desfazerem-se, mesmo nos anos enguiçados, do que alguém fazer-lhe essa desfeita…»

[in A Ressurreição da Água, de Maria Antonieta Preto, QuidNovi, 2008]

Comentários

One Response to “Avondo”

  1. C on Abril 12th, 2008 13:57

    Alentejanamente? Lindo nome, Maria Antonieta.

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