Cinco fragmentos felinos de João Paulo Cotrim

A minha gata faz-se equilibrista em mim.
Ainda não caiu, mas guardo a memória
dos arranhões.

***

A minha gata sabe ser só um olho, rente ao chão,
ao dobrar de uma esquina. E de nada faz uma
esquina.

***

A minha gata enche-nos de pêlo.
Acha estranho que, pertencendo à
mesma família, tenhamos tão pouco.

***

A minha gata abre as garras como navalhas
em flor. Sabe fazê-lo surgindo do nada.

***

A minha gata não dorme nunca sem deixar
activa uma pequena orelha trémula, periscópio
das sonolências. E o meu olhar não a protege,
incomoda-a.

[in A minha gata, Companhia das Ilhas, 2012]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges