Disfarçar a mentira

«Perverter a realidade através da linguagem, conseguir que a linguagem diga o que a realidade nega, é uma das maiores conquistas do poder. A política transforma-se, assim, na arte de disfarçar a mentira.
(…) Ninguém como o político perverteu tanto o sentido das palavras, de todas as palavras; nem sequer o mais recalcitrante fideísta. E se, como pretendia Heraclito, a alma humana se parece com uma aranha que acorre velozmente a qualquer lugar da sua teia quando sente uma das suas partes danificada, o político é uma aranha que acorre velozmente ao depósito comum da linguagem cada vez que se sente atacado por algum dos seus adversários.
(…) Somos repetidamente ludibriados, despojados da nossa honra, compelidos a comungar essa hóstia cheia de náusea a que eles chamam democracia, justiça ou liberdade. Todas estas palavras, na realidade tão profundas que deveriam queimar a língua de quem as pronuncia sem respeito, perderam o seu significado, a ponto de soarem aos nossos ouvidos como a música de Verão, ou como uma prece aprendida na catequese quando éramos crianças.»

[in O Revisor, de Ricardo Menéndez Salmón, trad. de Helena Pitta, Porto Editora, nas livrarias a partir do dia 27 de Janeiro]



Comentários

One Response to “Disfarçar a mentira”

  1. soliplass on Janeiro 19th, 2011 20:49

    Excelente texto (mais um dos que vai distribuindo) que dá vontade imediata de ler a obra. Passei no miradouro naquela manhã do Verão passado (desculpe não me ter apresentado – sou um outsider – nem ter pegado em livros, já que trazia as malas da moto cheias da feira da ladra) só para presenciar o bonito acto que é distribuiar livros. Como pelo miradouro, é sempre bom passar por aqui porque sempre há algo que distribuir. E sempre algo que vai ficando na memória. Como no tal miradouro.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges