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«– Ora aí está uma tacada bem forte – diz Russ.
Há na sua voz um sobressalto, um acréscimo de esperança.
E diz:
– Vai ser agora.
Gera-se uma pausa à sua volta. Pafko corre pela faixa esquerda do campo, em direcção ao canto.
E Russ diz:
– Eu acredito.
Pafko está junto à parede. Depois ergue os olhos. As pessoas pensam onde estará a bola. O ínfimo compasso de espera, a paragem no tempo que dura um breve instante. E Cotter está de pé no sector 35, a ver a bola voar na sua direcção. Sente o próprio corpo a transformar-se em fumo. Perde a bola de vista quando esta sobe acima do rebordo do segundo anel, e parece-lhe que ela vai aterrar aí. Mas antes que possa sorrir ou gritar ou bater no braço do companheiro do lado. Antes que o momento o possa subjugar, a bola torna a
aparecer, com as costuras a rodopiar, bem visíveis, tal a proximidade a que se encontra, e faz ricochete com toda a força na esquina de um pilar – mãos a assomar por todo o lado.
Russ sente a multidão à sua volta, um frémito a percorrer as bancadas, e nesse momento dá por si a gritar para o microfone e há uma onda de cor e movimento, um estrondo que se projecta para o alto, em todo o estádio, mãos e rostos e camisas, faixas de homens ondulantes, e ele grita desalmadamente, sente na voz uma potência que julgava há muito perdida – é bem capaz de lhe fazer saltar o alto do crânio, qual foguete nos desenhos animados.
E diz:
– Os Giants vencem a liga.
Uma bola num arco baixo, cheia de efeito. Ele bateu o lançamento como se empunhasse um tomahawk e a bola saiu a rodopiar sobre si própria e foi cair no primeiro anel e lá está Pafko junto ao letreiro das 315 jardas, de olhos volvidos para o alto, com o braço direito apoiado na parede e uma torrente de papel a tombar.
E Russ diz:
– Os Giants vencem a liga.
Sim, a voz é excessiva, com uma vaga nota de histeria no registo mais agudo. Mas é principalmente blam e vuump. Vê Thomson a contornar a primeira base em saltos e cabriolas. O boné do adjunto da primeira base – este atirou o boné ao ar, direitinho ao céu. O lançamento vinha à altura do queixo e ele acertou-lhe em cheio. A bola saiu alta e depois mergulhou, falhou por pouco o parapeito do anel superior e foi cair no meio das cadeiras da parte de baixo – sugada, engolida –, e os jogadores dos Dodgers olham, estáticos, já desligados daquele acontecimento, a remirar fixamente as sombras entre as bancadas.
E Russ diz:
– Os Giants vencem a liga.
Os elementos da equipa de reportagem da rádio urram, ululam. Respondem aos que batem na cobertura, dando palmadas nas paredes e no tecto da cabina. Há gente a trepar para cima da cobertura dos bancos de suplentes e a multidão estremece, envolta no seu próprio ruído. Branca permanece no montículo, de cabeça baixa, ar atormentado. Lançou uma bola alta, veloz, em direcção ao corpo do batedor, uma bola que, em princípio, este nem tentaria devolver. Russ grita, libertando-se da garganta inflamada, libertando-se de todas as doenças e patologias e achaques e de todas as dores do crescimento e de todas as memórias angustiosas.
E diz:
– Os Giants vencem a liga.
Quatro vezes. Branca volta-se e pega no saco de resina e atira-o ao chão, depois dirige-se para os balneários, de ombros alinhados obliquamente – inicia a longa caminhada, penosa e inerte. Papéis a cair por todo o lado. Russ sabe que devia serenar e deixar que o microfone captasse o ruído do caos à sua volta. Mas não consegue parar de gritar, nada resta da sua pessoa para além dos gritos.
– Bobby Thomson bateu a bola para o primeiro anel das bancadas junto à faixa esquerda do campo – diz.
– Os Giants vencem a liga e estão completamente eufóricos – diz.
– Estão completamente eufóricos – diz.
E é então que lança um grito em estado puro, sem palavras, um urro dos tempos de outrora – é o zumbido das rabecas que irrompe, é música das montanhas numa rádio rural às cinco e meia da madrugada. O berro brota-lhe da garganta em tropel, uma manifestação de júbilo, talvez seja eiii-ooo ou então ena-pááá gritado às avessas, ou talvez seja outra coisa completamente diferente – é difícil perceber quando alguém não articula palavras. E os companheiros de equipa de Thomson reúnem-se na casa-mãe e Thomson percorre as bases num saltitar brincalhão, dando cabriolas como um veado – agora será para sempre Bobby, um rapazito eufórico que fugiu às garras do tempo, e sente a respiração tão ofegante que não sabe se vai conseguir suportar todo o ar que lhe jorra para dentro dos pulmões. Vê homens numa fileira desordenada que aguardam em volta da placa-mãe para o cobrir de palmadas e safanões – os seus companheiros de equipa, os tipos mais porreiros do mundo, e ostentam no rosto uma expressão bizarra, estão atordoados pela felicidade que lhes desabou sobre os ombros, de olhos cintilantes debaixo dos bonés.»

[in Submundo, de Don DeLillo, tradução de Paulo Faria, Sextante, 2010]



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