Luz sobre papel

«Nos crimes: vê esta fotografia? É este homem? Sim, dizem 10 testemunhas.
A fotografia prova; a fotografia como o processo racional por excelência; a imagem substituiu o 2+ 2 = 4. Imagem: luz sobre papel. O verdadeiro iluminismo não é, pois, o da enciclopédia ou o do grande raciocínio do cientista, a principal luz é a que forma a imagem, a fotografia, o filme; tudo isto é o topo do iluminismo, o grande destino do homem: a luz finalmente chegou, a luz que tudo prova. É este o homem? Sim, é este: o da fotografia.
É este também o criminoso (e apontamos agora para quem mostra a fotografia) pois é ele que põe no lugar da inteligência, da dedução, indução e outros processos, é ele que substitui estes métodos, de uma vez e para melhor, por uma imagem. É este o criminoso, dirá quem ainda viver noutro século, e quem ainda julgar que ser racional é pensar. Mas nada disso, pois claro. No século XXI: ser racional é ver.»

[in Matteo Perdeu o Emprego, de Gonçalo M. Tavares, Porto Editora, 2010]



Comentários

9 Responses to “Luz sobre papel”

  1. jaa on Dezembro 13th, 2010 19:31

    Como você aqui colocou este excerto eu não resisto. Pura brincadeira para passar tempo: http://escafandro.blogs.sapo.pt/244874.html

  2. João Rocha Monteiro on Dezembro 13th, 2010 23:02

    Deve ser por isto que eu só leio estrangeiro. Ó Zé Mário. Leia lá esse excerto que escolheu e , sem se rir, sem eriçar as penas, diga lá se tem ponta por onde se lhe pegue.

    Que o Tavares gosta de fazer de conta que é um tipo com profundezas inexploradas está-lhe no sangue. Mas agora você andar a dar cobertura a indigências literárias como esta… não há pachorra.

    Vá lá. Leia lá essa porcaria e tente encontrar um fio condutor de raciocínio. Onde está a luz do espírito nesse trecho?

    Irra, que ser crítico hoje em dia é pior que ser carpideira. A essas sempre lhes pagam para fingir que gostam de alguém.

  3. José Mário Silva on Dezembro 14th, 2010 1:12

    Eu gosto dos textos do Gonçalo e assumo-o. O João Rocha Monteiro não gosta dos textos do Gonçalo e assume-o. Eu deixo que o João Rocha Monteiro utilize este espaço para dizer o que acha do Gonçalo. Eu não quero impor a minha opinião ao João Rocha Monteiro (embora o João Rocha Monteiro faça questão de me impor a sua). Tanto o Gonçalo, como eu, como o João Rocha Monteiro escrevemos o que queremos escrever. Chama-se a isto liberdade. É tão simples.

  4. José Mário Silva on Dezembro 14th, 2010 1:21

    Ah, jaa, a nobre arte do pastiche.
    Boa malha.

  5. João Rocha Monteiro on Dezembro 14th, 2010 13:14

    É curioso como a indigência mental é sempre protegida sob o manto da liberdade, que ninguém lhe quer tirar.

    Diz o Zé Mário que eu tenho a liberdade de não gostar, e o Zé Mário de gostar. Tudo bem. Mas, então não se assuma como crítico literário – enquanto tal, acho que se lhe impõe uma obrigação de justificação dos seus gostos. Ou acha que a crítica não serve para nada e tudo se resume a uma opinião?

    Acho que se existe uma diferença entre o Fernando Pessoa e o Casimiro de Brito, também existe outra (bem clara) entre a boa literatura e o Tavares.

    O que eu lhe pedi foi que justificasse o valor desse excerto – patético – que publicou. Acredito que pudesse ter escolhido outro, porventura de maior valor.

    Mas optou por ecolher um que, lido com atenção, é presunçoso, oco e vazio. Porquê?

    Cumprimentos.

  6. José Mário Silva on Dezembro 14th, 2010 17:42

    A razão, por acaso, é extra-literária. Escolhi este fragmento porque é o único (ou dos poucos) que não fazem referência a outros fragmentos. Publicar um texto que remete directamente para outro seria como partilhar um post que originalmente tinha links sem esses links.
    Repito: o fragmento é “presunçoso, oco e vazio” aos seus olhos, não aos meus. E desde quando é que um blogger, eu ou outro qualquer, tem que justificar porque escolheu publicar um determinado texto? A liberdade, já percebi, deve mesmo fazer-lhe alguma confusão.

  7. João Rocha Monteiro on Dezembro 15th, 2010 18:46

    Fiquei esclarecido quanto aos seus critérios (ou falta deles); mais esclarecido ainda quanto à estratégia de fuga que adopta.

    Não deixo de achar curioso que diga que escolheu o fragmento por razões extra-literárias: a impressão com que fico é que tinha que se “colar” ao Tavares por uma qualquer razão, que desconheço, mas que atribuo à sua inatacável liberdade.

    Gostava de ler um dia uma avaliação crítica sua deste fragmento, provando que um texto que não consegue sequer manter a identidade das proposições de ponta a ponta, deturpando os sentidos apenas para parecer profundo, não é presunçoso, oco e vazio…. mas se calhar não valia a pena.

    Cumprimentos.

  8. José Mário Silva on Dezembro 16th, 2010 16:31

    As impressões com que fica, lamento dizê-lo, não são de fiar.

  9. RC on Dezembro 19th, 2010 14:00

    Dá a impressão de que o João Rocha Monteiro não percebeu que isto é um blogue no qual o autor reproduz as críticas que escreve para um órgão de comunicação social. Que os leitores do Expresso (que o pagam) possam exigir fundamentação sólida de tudo o que é publicado, aceita-se. Mas por que raio tem o José Mário Silva de justificar o que decide publicar no seu blogue pessoal? E por que razão tem de concordar consigo?
    Caro João Rocha Monteiro, só mais duas notas: que eu saiba, ninguém paga para ler o que o autor do blogue escreve. E também ninguém é obrigado a cá vir.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges