O destino dos livros
«O que penso eu sobre o destino dos livros, meus caros amigos? A questão é interessante e apaixona-me tanto mais quanto nunca a tinha posto a mim mesmo até este momento preciso da nossa reunião.
Se por livros pretendem referir-se aos nossos inumeráveis cadernos de papel impresso, dobrado, cosido, brochado sob uma capa anunciando o título da obra, confessar-vos-ei francamente que não acredito – e que os progressos da electricidade e da mecânica moderna me proíbem de acreditar – que a invenção de Gutenberg possa não cair, mais ou menos proximamente, em desuso como intérprete das nossas produções intelectuais.
A tipografia, a que Rivarol chamou tão judiciosamente artilharia do pensamento, e da qual Lutero dizia que era o último e supremo dom pelo qual Deus difunde as coisas do Evangelho; a tipografia, que mudou o destino da Europa e que, sobretudo desde há dois séculos, governa a opinião, através do livro, da brochura e do jornal; a tipografia, que, a partir de 1436, reinou tão despoticamente sobre os nossos espíritos, parece-me ameaçada de morte, na minha opinião, pelos diversos gravadores de som que foram recentemente descobertos e que pouco a pouco se irão aperfeiçoar largamente.»
[in O Fim dos Livros, de Octave Uzanne, tradução de Jacinta Gomes, Palimpsesto, 2010]
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Também a mudança definitiva do formato rolo para o formato códice (o actual), no início da era cristã, provocou reacções negativas e profecias do fim do livro. Curiosamente, o novo formato digital e os seus aparelhos de leitura de certa forma representam um retrocesso e aproximam-se de novo dos velhos rolos: impossibilidade física de se folhear, com os consequentes inconvenientes ma busca rápida de informação (compensada, obviamente, pela busca electrónica), que foi o que levou à adopção do formato actual; rigidez do material, que torna problemático o transporte fácil (embora muitos calhamaços em papel ofereçam o mesmo ou pior problema).