O meu primeiro tiro

«Tenho a impressão de que ando aos tiros desde sempre, mas na verdade faço-o há pouco mais de três anos e, quando volto a pensar nos meus começos, sinto vergonha. Tudo se aprende. O alvo do meu primeiro tiro foi um homem ao volante de um táxi, no princípio da guerra. Acreditei que o tinha atingido porque o automóvel chocou a direito contra uma parede. Fiquei à espera, para o caso de o condutor sair. Todo eu tremia, apontando a minha espingarda para um lado e para o outro, a tentar perceber se alguém chegava para o socorrer. Disparei duas balas ao acaso, na direcção da porta da frente do lado esquerdo, mas era evidente que ele não saía e ninguém se aproximava. Eu tinha lágrimas nos olhos, não sabia o que fazer, não via sequer o homem a sangrar por causa do tecto do automóvel, que me obstruía a visão, e comecei a entrar em pânico, no meu prédio a quinhentos metros. É o efeito da mira. Tinha a impressão de estar lá em baixo e já não me reconhecia. Já não sabia se eu era aquele que dispara ou aquele sobre o qual se dispara. Tinha medo, estava tão agarrado à minha espingarda que era como se estivesse fundido com ela. Para dificultar ainda mais as coisas, havia uma casa relativamente alta, do lado direito do automóvel, que me tapava a porta do passageiro. Alguém se aproximou de repente, a correr, no meu ângulo morto, disparei por reflexo na direcção do movimento e evidentemente falhei e atingi o automóvel, porque ainda não tinha compreendido que no visor avaliamos mal as distâncias entre os objectos. Fui obrigado a recarregar a arma, perdendo momentaneamente de vista o que se passava à minha frente; e, como antes não prestara a devida atenção ao lugar que tinha debaixo de olho, perdi algum tempo a reencontrar o automóvel no meio dos prédios, por causa do pânico. Transpirava, fazia muito calor, era verão, o início da guerra, e o suor que me escorria da cara impedia-me de olhar pela mira. Quando reencontrei o lugar, esperei um quarto de hora mas ninguém saiu do pior lado do automóvel. Estava frustrado, não sabia se o homem estava morto, e se tinha sido eu a matá-lo ou o acidente. Foi nesse momento que disse a mim mesmo que era um cobarde, porque escolhera o tiro mais difícil, um homem protegido em três quartos do seu corpo, dentro de um automóvel em movimento. No fundo, acho que queria dar-lhe uma hipótese, o que é uma cobardia. Ou se dispara, ou não se dispara. É preciso escolher, ou então somos cobardes. Mas isso só o compreendi mais tarde.»

[in La Perfection du tir, de Mathias Énard, Actes Sud, 2003; inédito em português, tradução de José Mário Silva]



Comentários

2 Responses to “O meu primeiro tiro”

  1. avaz on Julho 23rd, 2010 1:00

    substitui “luneta” por “mira” e fica óptimo.

  2. José Mário Silva on Julho 23rd, 2010 17:40

    Obrigado pela sugestão. Também não estava satisfeito com a luneta.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges