O verdadeiro teste para um escritor é o ponto e vírgula

«O professor Fortuna tinha sempre a barba por fazer e vestia um sobretudo cor de rato molhado, fosse qual fosse a estação do ano. Não é um homem feio, mas era tão difícil acreditar nas peripécias sexuais que contava (“aprendi na Índia”) quanto acreditar que lia grego no original, como também afirmava. Dizia que qualquer dia me entregaria para publicação o livro que estava escrevendo, uma resposta à Crítica da Razão Pura com o título provisório de Anti Kant. Sabíamos quase nada da sua vida, mas tínhamos certeza de que o livro não existia e que ele nunca lera Kant. Ou Nietzsche. Dubin e eu frequentemente o envolvíamos em nossas discussões, mesmo quando a sua mesa estava longe da nossa e tínhamos que gritar para que nos ouvisse.
– Qual é a sua posição sobre a vírgula, professor?
E ele:
– Sou contra!
Tese do professor: vírgula qualquer um põe onde quiser. O verdadeiro teste para um escritor é o ponto e vírgula, que, segundo ele, até hoje ninguém soube como usar. Salvo, talvez, o Henry James, que ele obviamente também nunca leu. Um debate reincidente entre nós era se livros policiais e de espionagem podem ser boa literatura. Eu dizia que sim, o Dubin não tinha certeza e o professor não tinha dúvida: era lixo. Ele reagia às minhas evidências em contrário com sons de desprezo. Graham Greene? Bó! Rubem Fonseca? Blech! Raymond Chandler? Acht! Uma vez perguntei se ele tinha comprado um certo livro do John Le Carré.
– Pra quê? Já tenho papel higiênico em casa.
Só não me levantei para bater nele porque não conseguiria. Era sábado e eu já estava a meio caminho do fundo.»

[in Os Espiões, de Luis Fernando Verissimo, Dom Quixote, 2009]



Comentários

One Response to “O verdadeiro teste para um escritor é o ponto e vírgula”

  1. Luís Graça on Janeiro 31st, 2010 4:45

    O livro tem tido críticas de sinais inversos, mas para mim Veríssimo é sempre delicioso.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges