Pertuiset

«Estendido sobre um chão azulado, o leão ocupa o quadro a toda a largura, a cabeça contra o lado esquerdo, a bocarra aberta a mostrar as presas, um buraco por trás do olho aberto, brilhante (um olho de vidro, dirão, escarninhos, os mal-intencionados), negro e donde cai um pouco de sangue, as patas de trás quase a sair da moldura, à direita. O tronco duma árvore ergue-se em primeiro plano à esquerda, vertical, num tom cinzento escamado de negro, com uns toques de amarelo e de verde-escuro a disfarçar uma parte da juba, que descai negra sobre a pele amarelada. O pintor assinou na casca da árvore: «Manet, 1881» (um casal de mulatos ainda novos, ambos encorpados, perplexos, imaginam o que pode lá estar escrito: Miguel? Não, não é Miguel. No plano de fundo, algumas árvores esguias distribuem uma sombra leve, esburacada por manchas dum sol amarelo-rosado; à esquerda do tronco, o chão é azul, à direita a puxar para o malva-lilás, em baixo a cor é um verde-musgo. Ao que parece, era francamente violeta quando quadro foi exposto no Salon de 1881, o que levou Huysmans a dizer “que era demasiado fácil”. O caçador ocupa a direita da zona média do quadro. Está espartilhado, metido num casacão verde-escuro, com enormes botões dourados, apertado por um cinto de fivela larga. Por baixo conseguimos ver as mangas duma camisa branca, e o colarinho aberto à volta dum pescoço de lutador. Joelho direito por terra, carabina de dois canos apontada para o chão e cuja coronha brilha sobre o cotovelo direito, metido numas botas formidáveis de cabedal preto, das quais ressaltam uns vagos brilhos, o homem parece manter-se à espreita. Mas de quê? Não terá ele visto o leão que jaz, abatido, atrás de si? Estará à espera de outro? Ou tem medo que lhe roubem o tapete de cama? “A pose deste caçador de suíças, que parece andar aos coelhos nos bosques de Cucufá, é infantil”, escreve ainda esse sacana do Huysmans. De facto, o homem tem mais o ar de quem enfiou a cabeça no buraco que existe nesses cenários artificiais e ingénuos de feira de província a fingir uma caça aos leões. Uma cabeça de rústico inexpressiva, ou de alguém que exprime sentimentos ridículos, apanhada de surpresa numa posição de desagrado, vagamente desconfiada, do género o primeiro que aparecer leva com um tiro. Espesso, entumecido, sobrancelhas grossas, arqueadas, farto bigode de morsa que lhe tapa a boca, enormes suíças tipo costeleta em volta dum duplo queixo que desponta. Exibe um chapéu de copa alta e preta com uma fita azul e nela uma pena de enfeite. O tom da pele é dum rosa salsicha, duma carnação barrenta (as cores, também se alteraram: segundo Jacques-Émile Blanche, no início “as carnes eram vermelhas como um tomate”). A criatura assemelha-se bastante à ideia que fazemos dum antigo taberneiro vindo das berças, um carvoeiro, a quem ficariam melhor o esfregão ao ombro do que propriamente a espingarda. A bota do pé esquerdo é realmente terrível. Ninguém vai discutir com uma pessoa que usa umas botas daquelas. O olhar tem uma fixidez idiota.»

[in Um caçador de leões, de Olivier Rolin, trad. de Tiago França, Sextante, 2009]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges