portugal

«não é meu, respondeu ela ao maldito. e ele sorriu e disse, entra, portugal. o animal saltou o degrau e pôs-se dentro de casa como se soubesse tudo sobre estar ali e lhe pertencesse cada coisa. a maria da graça não reagiu. correu para a cozinha e sentou-se para não desmaiar. o bicho foi ao encontro dela em alguns segundos. quer quisesse, quer não, o cão era como seu, afinado pelos seus passos para as quatro patas que mexia. ela viu-o bem visto pela primeira vez e gritou para o senhor ferreira que, afinal, a espreitava já na porta da cozinha, temos de lhe pôr um nome, há que saber como chamar pelo traste, para se habituar a ter-nos medo quando nos ouvir gritar-lhe. e o senhor ferreira respondeu, mas já lhe dei o nome, não ouviu, chama-se portugal. é como se tivesse nascido hoje ou, melhor, como se hoje fosse festa, digna de baptizado e tudo. e ela respondeu, então devia ser república ou implantação, qualquer coisa assim. mas seriam mais nomes para menina, e muito feia. nada disso, retorquiu ele, é portugal. e ela aceitou, respondeu, é nome de menino, embora feio. apaziguou-se muito pouco, de início, depois mais, e vendo o animal tão comportado disse, é um rectângulo castanho, um ridículo rectângulo castanho, deve estar cheio de pulgas e chama-se portugal. tem razão, é um bom nome. vamos dar-lhe banho.»

[in o apocalipse dos trabalhadores, de valter hugo mãe, QuidNovi, 2008]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges