Primeiro parágrafo

Há quem tenha o fetichismo das primeiras frases. Eu alinho mais no fetichismo dos primeiros parágrafos. Quando tropeço num que seja particularmente bom, fico parado numa espécie de pasmo, saboreio aquilo frase a frase, volto atrás uma, duas, três vezes, releio uma quarta e só depois prossigo com a leitura.
Querem um exemplo? O início do romance Sempre Vivemos no Castelo, de Shirley Jackson, que a Cavalo de Ferro acaba de editar, com tradução de Maria João Freire de Andrade:

«Chamo-me Mary Katherine Blackwood. Tenho dezoito anos e vivo com a minha irmã Constance. É frequente pensar que se tivesse tido um pouco de sorte poderia ter nascido lobisomem, porque o anular e o dedo médio das minhas mãos têm o mesmo comprimento, mas tive de me contentar com aquilo que tenho. Não gosto de me lavar, nem de cães ou barulho. Gosto da minha irmã Constance, de Ricardo Coração de Leão e do Amanita phalloides, o cogumelo da morte. Todas as outras pessoas da minha família estão mortas.»



Comentários

6 Responses to “Primeiro parágrafo”

  1. Manuela on Abril 27th, 2010 13:37

    Anular? Dedo anular? Que dedo será esse? :-)

  2. José Mário Silva on Abril 27th, 2010 13:46

    É o dedo em que se usa mais o anel. O mesmo que dedo anelar. Está nos dicionários. Confirme, Manuela. É que não se pode anular o segundo significado da palavra ‘anular’.
    😉

  3. Gonçalo Mira on Abril 27th, 2010 14:07

    O melhor primeiro parágrafo de sempre é também editado por cá na Cavalo de Ferro. “Pedro Páramo” de Juan Rulfo:

    «Vim a Comala porque me disseram que vivia aqui o meu pai, um tal Pedro Páramo. Foi a minha mãe quem mo disse. E eu prometi-lhe que viria vê-lo quando ela morresse. Apertei-lhe as mãos como sinal de que o faria pois ela estava à beira da morte e eu disposto a prometer-lhe tudo. «Não deixes de ir visitá-lo» – recomendou-me. «Chama-se assim e assado. Tenho a certeza de que gostará de conhecer-te.» Na altura nada mais pude fazer para além de lhe dizer que sim, que o faria, e de tanto lho dizer, continuei a dizê-lo mesmo depois do trabalho que as minhas mãos tiveram para se afastarem das suas mãos mortas.»

  4. Alexandra Pinto on Abril 27th, 2010 16:31

    Engraçada, a palavra! Também fui ver.

    É muito bom que de vez em quando surjam estas palavras que nos deixam intrigados, e nos fazem ir ver dicionários. Parece-me que são muitas as vezes em que nos esquecemos que a língua portuguesa é tão mais complexa, do que as “poucas” palavras que utilizamos normalmente. Por acaso, tinha visto o parágrafo no site da editora, mas como não vi o livro, pensei que fosse “gralha”. Obrigada, JMS, por mais esta palavra.

  5. No vazio da onda on Abril 28th, 2010 18:36

    Concordo, excelente exemplo de um início de livro. Mas não conhecia a autora. Fui pesquisar um pouco e encontrei algumas referências, mas não me convenceram. Porém, sendo que é editado pela Cavalo de Ferro, já me dá mais garantias. Está prevista alguma recensão a este livro?

  6. Ana Nunes Cordeiro on Abril 30th, 2010 2:03

    Assim que comecei a ler o teu post, identifiquei-me de imediato: partilho o mesmo fetichismo e lembrei-me logo do primeiro parágrafo que me fez comprar um livro há bocado, na Feira do Livro. E, de entre tantos livros que lá há, foi esse que comprei, o que tu citas.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges