Primeiros parágrafos

«A tragédia do Largo do Rato conduziu a que muitos jornalistas e outras pessoas tenham insistido comigo para os ajudar a compreender aquilo que se passou. Profissionalmente não devo – e pessoalmente não quero – trazer a público elementos do meu trabalho que possam permitir mais especulação acerca do comportamento, da personalidade e das motivações do meu paciente. O Verão de 2012 foi terrível para ele. Aquilo que o atormentava estava, receio bem, muito para além dos meus fracos poderes, dos diálogos que oriento ou acompanho, dos remédios que prescrevo. Dividido como estava entre a vontade de ver claro em si e a tendência neurótica para perceber em tudo uma conjugação maléfica de factores independentes da sua vontade, o meu paciente não conseguiu integrar ou dar conta do sofrimento. Tomei muitas notas daquilo que ele me disse, do que não me disse mas adivinhei, recebi dele fragmentos de um texto, talvez uma espécie de romance, que estava a escrever e nunca terminou, palavras que acredito terem tido relação directa ou indirecta com o seu mal e com aquilo que sucedeu no decorrer do Verão. Vou utilizar aqui os textos que ele me enviou e as notas que tirei das sessões realizadas com ele, mas sem me ocupar de aspectos terapêuticos, porque o seu mapa psíquico e os meus procedimentos para navegar nesse mapa e para o ajudar a fazer o mesmo apenas podem interessar aos meus colegas, e não é a eles que este livro se dirige.»

[in O Verão de 2012, de Paulo Varela Gomes, Tinta da China, 2013]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges