Primeiros parágrafos

«”O facto é que sempre tive mais dúvidas do que certezas.”
“Tem a certeza?”
“O quê? Ah, está a ser irónico. Mas é verdade. E sempre achei que essa talvez seja a minha melhor qualidade. Notou o talvez, espero.”
A noite prometia ser longa. Mas eu tinha dito que sim, que viesse. E até, se necessário, que poderia dormir na saleta-quarto lá em cima. Sofá japonês dos que se puxam as costas para a frente, depois para trás, e fica cama. Casa de banho minúscula mas isto não é hotel nem residência de diplomata. “Não vai ser necessário. Terei de ir antes. Devo ter de ir. Por isso é melhor que você saiba tudo. Não, mas é verdade. O que lhe disse das dúvidas.”
Obviamente ia continuar até não haver amanhã. Ou para conseguir que não houvesse amanhã. Afinal conhecendo‐nos pouco, de início só de encontros ocasionais em funções públicas aqui e além. É certo que ao longo de vários anos. Na Embaixada em Londres, duas ou três vezes em Lisboa, uma vez na Gulbenkian em Paris. Ambos evitando grupos grandes onde ninguém ouve
ninguém, gostos semelhantes, boas conversas, mas nada de exageradamente pessoal. Depois passou a telefonar‐me antes de vir a Londres, para saber de óperas e teatro que valesse a pena. Tornámo‐nos tão amigos quanto é possível ser a partir de certa idade. E tinha lido alguns dos meus livros, o que sempre afaga o narcisismo. A dizer que gostava dos meus romances por serem inconclusivos. Não me pareceu grande recomendação mas ele explicou. Era como se as vidas das personagens continuassem depois de o livro acabar. Ou como se só então pudessem começar. Considerava que deveria ser essa a função dos escritores. Libertar as personagens. Propiciar‐lhes futuros. Dar‐lhes o livre‐arbítrio que não têm. Não sei se é verdade ou não mas tanto faz, o que importa é que era elogio. Em todo o caso, como geralmente acontece quando se fala dos outros, devia ser de si próprio que estava a falar. De ele próprio querer ser inconclusivo.»

[in Tão Longo Amor Tão Curta a Vida, de Helder Macedo, Presença, 2013]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges