Primeiros parágrafos

«Não sou má pessoa. Eu sei que isto soa defensivo, pouco escrupuloso, mas é verdade. Sou como toda a gente: fraco, cheio de falhas, mas basicamente bom. A Magdalena, porém, não tem a mesma opinião. Acha que eu sou um dominicano típico: um sucio, um cabrão. É assim, há uns bons meses, quando estava ainda com a Magdalena e vivia quase sem preocupações nenhumas, enganei-a com uma miúda que tinha um penteado anos oitenta e uma tonelada de cabelo. Pior, não contei à Magda. Vocês sabem como estas coisas são. Um esqueleto malcheiroso como esse, mais vale enterrá-lo no quintal da nossa vida e pronto. Ela só descobriu porque a tipa lhe escreveu uma puta duma carta. Uma carta cheia de pormenores. Com merdas que uma pessoa não conta sequer aos amigos numa noite de copos.»

[in É Assim Que a Perdes, de Junot Díaz, trad. de José Miguel Silva, Relógio d’Água, 2013]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges