Primeiros parágrafos

«Billy Gray era o meu melhor amigo e eu perdi-me de amores pela mãe dele. “Amor” é capaz de ser uma palavra demasiado forte, mas não conheço nenhuma mais fraca que sirva. Tudo isto aconteceu há meio século. Eu tinha quinze anos e Mrs. Gray trinta e cinco. Estas coisas são fáceis de dizer, visto que as palavras não sentem vergonha e são imunes à surpresa. Se calhar, ela ainda é viva. Teria… quê?, oitenta e três, oitenta e quatro? Nada de especial nos tempos que correm. E se eu tentasse encontrá-la? Isso é que seria uma grande façanha. Gostaria de estar de novo apaixonado, gostaria de voltar a apaixonar-me, só mais uma vez. Podíamos fazer um tratamento à base de injeções de glândulas de macaco, ela e eu, e ficávamos como há cinquenta anos, rendidos a êxtases passionais. Pergunto-me como é que ela estará, quer dizer, partindo do princípio de que ainda habita este mundo. Ela era tão infeliz naquela época, só pode ter sido infeliz, apesar da sua corajosa e persistente boa disposição, e espero do fundo do coração que as coisas tenham melhorado.»

[in Luz Antiga, de John Banville, trad. de José Vieira Lima, Porto Editora, 2013]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges