Primeiros parágrafos

«O gesto inicial de Montaigne gerou vasta descendência, como se sabe.
De tão vasta e heteróclita prole, um dos nomes que menos se destaca é o de Harry Heels, mancuniano da safra de 1940. Filho de John Heel, diácono e bibliotecário em Levenshulme, nascido em Gorton no ano de 1916, filho de um sapateiro dessa povoação e de uma lavadeira de Longsight, e casado aos 24 anos com Rebecca Hall, daí em diante conhecida como Sra. Hall Heel.
Entregaram o seu primeiro filho à voracidade pública num dia enevoado de Novembro de 1940, mas o diácono foi tomado pelo horror ante o fruto do seu comportamento lascivo e deu para adopção aquele que viria a ser o seu único filho, atirando a responsabilidade para os braços de outros, através dos conhecimentos que lhe dispensava o sacerdócio.
Por essa falta, o seu deus acertou contas com ele.
Foi na biblioteca, a 30 de Julho de 1943. Atingiu-o na cabeça um grande vaso que um administrador achara por bem colocar na estante por trás da sua secretária. Quando estava só, John tinha a tentação de se espreguiçar, um gesto que por pudor só se permitia uma vez por dia. Impusera-se esse cilício da única espreguiçadela diária, mas o calor amolecia-lhe a fé e tornava o indolente, como ele dizia na catequese acerca dos negros, falando às crianças de Gorton, advertindo-as para o terrível pecado da preguiça, fazendo-o com verdadeira convicção, mas sem nunca lhes lembrar, apesar de tantas lições ter dado nessa paróquia, que era vítima de um pecado semelhante àquele de que dominicalmente acusava os africanos. Bocejou com vigor e começou a erguer os braços de forma tímida. Esticou-os com languidez, prolongando o bocejo. Nesse momento, as pernas traseiras do seu banco, gastas pelo muito tempo que John passava sentado, escorregaram numa zona do soalho que durante a limpeza matinal fora esfregada com maior vigor do que o habitual e que depois de almoço — quando os ditos factos se deram — permanecia ainda algo húmida. O acidente apanhou a espreguiçadela numa sorte de momento descendente. Os dedos entrelaçados do diácono tinham atingido o zénite da preguiça e preparavam-se para a descida. Assustou-se com o brusco movimento para diante do seu banco.
As suas mãos procuraram o amparo da estante, mas não encontraram senão o rebordo do naperão colocado sob o vaso, uma tentativa para salvar-se que outro efeito não teve senão fazer o vaso precipitar-se sobre a sua cabeça, o que aconteceu já depois de ter chegado ao chão, onde primeiro bateu com a nuca, fracturando de imediato o occipital e partes do parietal. No vaso crescia o que teria sido um esplêndido philodendron, que o administrador insistira em plantar ele próprio após mandar vir a semente do Brasil por posta aérea. Tinha achado a planta bela ao vê-la num catálogo, sabendo de antemão e de fonte segura que a mesma não se daria naquele clima, trazendo-a então por capricho e plantando-a, num segundo e ainda mais terrível capricho, por trás da secretária do diácono John Heel, no qual poderia depois pousar a culpa que o assolaria por a planta não ter medrado, insinuando talvez que o outro não a teria regado como era próprio, mas não se imaginando capaz de o punir com tão temível morte por tão magra ofensa, o crânio esmagado pelo pesado vaso que continha o amarelecido e raquítico philodendron e os poucos quilos de terra que o mantinham.»

[in Cinerama Peruana, de Rodrigo Magalhães, Quetzal, 2013]



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