Primeiros parágrafos

«Antes de mais, repara, Almodôvar, tu não estavas cá.
As coisas ficaram muito difíceis muito depressa. Ou talvez tenha sido sempre assim, talvez o mundo tenha sido sempre um lugar complicado. Não creio que tenha começado quando foste preso, ainda que, de alguma forma, isso me pareça o início de tudo. E a tua ausência reforçou as nossas dores, a tua decisão de não quereres ver ninguém teve consequências. O que é o mesmo que dizer: não estávamos preparados para não te ter
aqui. Deixaste demasiado espaço vazio e nenhum de nós sabia muito bem mover-se na amplitude desse abandono. Mas tu não estavas cá, nós não podíamos fazer mais do que tentar. Ainda não sei se falhámos. Sei apenas isto: não serás tu a decidir sobre os nossos fracassos. Em algum momento da história, a coerência do teu silêncio tornou-se uma condição.
Imagino-te aí dentro. Um lugar que não é teu, no qual tiveste de aprender a encaixar o corpo e entender leis que estão escritas apenas nos olhos dos homens à tua volta. Foi difícil? Doeu-te a força das paredes em redor? Sentiste o terror de encarar o olhar armado dos teus novos companheiros? Cá fora, todos crêem que sim. Na primeira semana que passaste aí, a Clara ligava -me todas as noites, depois do jantar, a chorar, a respiração destravada, quase a sufocar, a chamar-te “coitadinho” como se estivesse a falar de uma criança ainda leve de culpas, como se tivesse enviuvado cedo demais, a suspirar “o meu amor”, a perguntar-me “e se lhe fazem mal?”. O teu filho, o pequeno Vasco que já é mais alto do que eu, chegava a casa da escola e trancava-se no quarto a tocar violino, as pautas espalhadas pelo chão, o vibrar agudo das cordas a subir pelas paredes do prédio. E o Xavier a estudar os códigos penais na Internet, à procura de uma cláusula qualquer que te tirasse daí, a repetir “o gajo não aguenta, Daniel, o Almodôvar não foi feito para estar atrás
das grades”. Os teus amigos reunidos à mesa em cafés, restaurantes, cozinhas, a chocarem os copos com entusiasmo em tua honra para disfarçarem o pressentimento de que alguma coisa má te estava para acontecer. Ninguém entendia nada. Como é que aquilo podia ser? Um homem bom, sorriso honesto, palavras sempre justas. Marido. Pai. Amigo. Qualquer explicação parecia uma fantasia. E eu passava a vida a desculpar-te diante de todos, a dizer “ele teve os seus motivos, nós conhecemo-lo, ele não é outra pessoa por estar numa prisão”. Nessa altura eu ainda não estava zangado contigo.»

[in Índice Médio de Felicidade, de David Machado, D. Quixote, 2013]



Comentários

4 Responses to “Primeiros parágrafos”

  1. não interessa on Setembro 13th, 2013 9:30

    Logo nas primeiras linhas: muito muito sempre sempre. Boa literatura, isto? Bons editores, esses? Bons críticos, que se encantam por cenas mediocres?

  2. José Mário Silva on Setembro 13th, 2013 11:48

    Cada pessoa lê como quer, caro anónimo, mas parece-me evidente que neste caso a repetição das palavras “muito” e “sempre” é propositada, para criar ênfase.

  3. não interessa on Setembro 13th, 2013 14:20

    Bem me pareceu: uma literatura enfatizada, toda ela – ou seja: inócua. Despejada de verdadeira experiência da vida.

  4. José Mário Silva on Setembro 13th, 2013 14:30

    Ou talvez não. Mas para saber isso teria de ler o livro todo, não é?

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges