Primeiros parágrafos

«Assusta‐a a rudeza do mais velho, o seu rosto de ratazana esgalgada; o olhar indecifrável do outro, o gago. São os seus cunhados. Chegados há uma semana a Maputo para o enterro do seu marido.
Não param de manducar, de clamar por bebida, de vasculhar tudo na casa, metediços. A ocupação da casa de banho ficou vitalícia (o mais novo penteia o bigode com a sua escova de dentes), nos intervalos de emporcalharem lençóis, toalhas de mesa, sofás, de ranho e merda e vinho e esperma. Mal acorda, ainda enevoada, vê que adejam pela casa, sem decoro, os maxilares infatigáveis com que retalham o dia, enquanto plangem guitarras nas marrabentas («k’há n’pfa ndy nga psi tive / Eh psaku ku unandi ka Mandjólò»), e o movimento dos lábios suplica por reforço: «“ma‐ma‐mã” tou‐tou a pe‐pe‐dî…»
A sua mãe, farta daqueles modos, resolvera voltar para casa e levar as crianças, advertindo‐a na porta, esta gente não presta, se armarem confusão fala com o polícia do sétimo. E fora, as crianças de olhos pisados pelo choro. O polícia do sétimo – sentira um arrepio – e veio‐lhe à cabeça: o homem que prendeu o meu marido. — “Ma‐mamã”… — repisa o menos abrutalhado — me me dá vi‐nho!
O outro, na varanda, fuma, desconcerta a paisagem. Assim que chegaram, gabaram a vista, «“ouvera” dizer que a casa do mano ficava no alto, mas este alto, chi, é graúdo», explicou o Ratazana, expondo pela primeira vez as gengivas em sangue, que a arrepiavam; depois, ficou claro que os animavam mais os dois vasos de erva que o marido pusera na varanda do que a vista. Só vira duas vezes aqueles irmãos do marido. Quando fora apresentada à família dele, no casamento, e na segunda vez que subiram à Beira, nascida a mais nova, para mostrar a miúda. Nem lhes conseguiu fixar o nome, queria era esquecê‐los. Sempre a incomodaram, aquelas gengivas em sangue, o verdete daquele canino talhado a meio. Na Beira, o Ratazana, tinha duas mulheres, nove filhos, e vivia de biscates. O outro, professor primário, fora deixado pela mulher, depois de a surrar quase até à morte, aos sete meses de gravidez. Por ciúmes do pastor, «ele te‐tem aque‐la fala li‐lisa e mulher go‐gosta», desculpou‐se. O marido ao pé deles era um príncipe, articulado, elegante, perfumado. O tio Alberto, empregado na farmácia da Polana, até comentara, «Chi, aquele moço nem parece ndau, é um machope de ventre enganado…»
Conhecera‐o numa festa da McCel que assinalava o arranque da reabilitação da Feira Popular de Maputo. Ele era o chefe dos seguranças. Adorava vê‐lo a dar orientações pelo walkie‐talkie. Excitava‐a o ar decidido dele, o seu fluido dizer, sem espinha ou caroço. Só muito depois, já nascera o segundo filho, soube que o seu verdadeiro negócio era o tráfico. O esquema. Vário. Que importava, se a metera a estudar, se graças a ele tinha feito a 11.a classe, se era bom com a criança? Já se tinha matriculado na 12.a quando ele foi preso. Na ocasião nem aparecera, mas de certeza que o polícia do sétimo estava metido. Um mês depois, o marido envolveu‐se num motim na prisão e foi abatido. Há dez dias. Separada do seu homem há dez dias, por uma bala que lhe engarrafou a alma. Dez dias separam a memória fresca do marido daqueles lábios grossos de sangue coagulado, que agora, de viés, pedem, insistentes: — “Ma‐ma‐mã”, pe‐pe‐ço sardinha!»

[in A Maldição de Ondina, de António Cabrita, Abysmo, 2013]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges