Primeiros parágrafos

«A estreia da ópera Salomé, de Richard Strauss, contra todas as aparentes probabilidades, não se fez na Ópera da Corte de Viena. Os censores imperiais, e portanto a direcção do teatro, acharam-na imoral por utilizar a personagem bíblica e, sobretudo, pela volúpia que emanava do tema e da música. Começou por ser produzida em Dresden, portanto na Alemanha, e na Áustria só em Linz viu a luz da cena. Foi um acontecimento. Na estreia compareceu muito público vindo de Viena; havia grande excitação por toda a Áustria e à laia de piada um jornal anunciou que os caminhos-de-ferro até podiam chegar a preparar comboios especiais, para ser possível chegar a tempo de assistir a um dos dois espectáculos anunciados. Entre os assistentes curiosos encontravam-se Mahler, a sua bela mulher Alma e o jovem Schoenberg; Puccini e os seus amigos tinham reservado um camarote.
Hoje também se sabe que o jovem Hitler arranjou dinheiro para poder participar na grande festa musical. Aliás, Hitler gostou muito de voltar a Linz; não era a sua terra natal, mas tinha ali passado alguns anos da sua mocidade, que ele relembrava com muita saudade. Nessa época, a cidade era menos industrial do que chegou a ser; era tipicamente austríaca, e como então se dizia o rio Danúbio gostava ali de todos os seus trezentos mil habitantes, ao passo que em Viena o danúbio era apenas folclore.
Hitler levava uma mochila de viagem cheia de pão com manteiga e queijo, para conseguir sobreviver. Uma vez em Linz sentiu-se feliz e infeliz. Feliz por estar “em casa”, infeliz porque não tinha bilhete para assistir a Salomé. Nem bilhete, nem dinheiro para o bilhete, se ainda houvesse algum disponível. A sua queixa chegou aos ouvidos de Alma Mahler. Teve pena dele; falou com o marido, que não recusava nada à sua amada esposa, e ele arranjou uma entrada para Hitler, embora só fosse um strapontin (strapuntino, em italiano). Hoje em dia, os grandes teatros raramente dispõem desse banco rebatível, de facto um assento auxiliar utilizado em ocasiões especiais e normalmente mantido dobrado. Como não é um lugar normal, é claro que só serve quando há extrema necessidade de o utilizar, e também para os polícias se sentarem. Hitler começou por agradecer a Gnädige Frau, mas ainda sem saber que não ia ocupar um lugar idêntico ao dos outros. Uma vez sentado começou a pensar se ia ficar nesse lugar humilhante, se deveria sair ainda antes do início da abertura de Salomé, ou, pelo contrário, se sairia provocatoriamente um pouco antes do fim.»

[in Remington, de Jorge Listopad, Cavalo de Ferro, 2013]



Comentários

Comments are closed.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges