Primeiros parágrafos

«Abro os olhos e não sei onde estou nem quem sou. Não é nada de incomum, passei metade da minha vida sem saber. Ainda assim, parece diferente. Esta confusão é mais assustadora, mais absoluta.
Olho para cima. Estou deitado no chão, ao lado da cama. Já me lembro. Passei da cama para o chão a meio da noite. Faço-o a maior parte das noites. É melhor para as minhas costas. Demasiadas horas num colchão macio provocam-me um sofrimento atroz. Conto até três e dou início ao longo e penoso processo de me levantar. Viro-me de lado, a tossir e a gemer, depois enrolo-me em posição fetal; por fim fico de bruços. Agora espero, e espero, até que o sangue volte a circular.
Sou relativamente jovem. Trinta e seis anos. Mas, quando acordo, sinto-me como se tivesse noventa e seis. Depois de três décadas de sprints, paragens bruscas, saltos constantes e aterragens rudes, o meu corpo já não parece ser o meu corpo, sobretudo pela manhã. Por conseguinte, a minha mente também não parece ser a minha mente. Quando abro os olhos, sou um estranho para mim mesmo e, embora isso, uma vez mais, não seja nada de novo, é mais pronunciado de manhã. Revejo rapidamente os factos básicos. O meu nome é Andre Agassi. Sou casado com Stefanie Graf. Temos dois filhos, um menino e uma menina, de cinco e três anos de idade. Vivemos em Las Vegas, no estado de Nevada, mas, de momento, estamos instalados numa suíte do hotel Four Seasons de Nova Iorque, porque estou a participar no Open dos Estados Unidos de 2006. O meu último Open dos Estados Unidos. Na verdade, a última competição na qual participarei na vida. Ganho a vida a jogar ténis, embora odeie o ténis; odeio-o com uma paixão secreta e sombria, sempre o odiei.»

[in Open – A minha história, de Andre Agassi, Cavalo de Ferro, 2014]



Comentários

Comments are closed.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges