Primeiros parágrafos

«Muitas vezes um círculo delimita o lugar onde se encontra sentada a personagem, ou seja, a Figura. Sentada, deitada, debruçada ou outra coisa. Este círculo, ou esta oval, ocupa mais ou menos espaço: pode extravasar o quadro, para lá dos seus limites, pode estar no centro de um tríptico, etc. Frequentemente sucede que surge reduplicado, ou mesmo substituído, pelo círculo da cadeira em que a personagem está sentada, pela oval do leito em que a personagem está deitada. Migra para os pequenos discos que rodeiam uma parte do corpo da personagem ou para dentro dos círculos giratórios que envolvem os corpos. Mas mesmo os dois camponeses só formam uma Figura pela relação com uma terra envasada, estreitamente contida na oval de um vaso. Resumindo, o quadro comporta uma pista, uma espécie de circo, enquanto lugar. Trata-se de um procedimento muito simples que consiste em isolar a Figura. Há outros procedimentos de isolamento: pôr a Figura dentro de um cubo ou, mais rigorosamente, dentro de um paralelepípedo de vidro ou de gelo; colocá-la sobre um carril, sobre uma barra estendida, como se se tratasse do arco magnético de um círculo infinito; combinar todos estes meios, o círculo, o cubo e a barra, como sucede nesses estranhos sofás baconianos, abertos e arqueados. São lugares. Seja como for, Bacon não esconde que estes procedimentos são quase rudimentares, apesar das subtilezas das respectivas combinações. O importante é que não constrangem a Figura à imobilidade; pelo contrário, cumprem o papel de tornar sensível uma espécie de progressão, de exploração da Figura no lugar ou sobre si mesma. É um campo operatório. A relação da Figura com o seu lugar isolante define um facto: o facto é… o que tem lugar… E a Figura assim isolada torna-se uma Imagem, um Ícone.»

[in Francis Bacon – Lógica da Sensação, de Gilles Deleuze, tradução de José Miranda Justo, Orfeu Negro, 2011]



Comentários

Comments are closed.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges