Primeiros parágrafos

«Na ladeira, que era duma bruteza íngreme, o chão esfarelava-se em pedrinhas mínimas que rolavam debaixo dos nossos pés, obrigando-nos a jogos de equilíbrio ridículos, com apoio de mãos. Por isso, Mussa, à minha frente, voltava-se para trás, parado à nossa espera, e ria com descaro. Ele parecia um espeque negro, cravado na escorrência de areias ferrosas, a projectar uma sombra esguia, quebrada, pouco mais grossa que a da vara a que se arrimava. “É lá adiante!”, dizia, entre casquinadas agudas, e apontava para o cimo penhascoso, de alcantis avermelhados, muito erodidos, com protuberâncias que lembravam inchaços bulbosos. Perguntava-me eu se Mussa saberia o que estava a fazer e não nos prepararia um rebate falso, como havia acontecido com o amontoado de pedras na margem do ued, que se viu depois ser uma marcação de caravaneiros com menos de oito dias.»

[in O Homem do Turbante Verde e outras histórias, de Mário de Carvalho, Caminho, 2011]



Comentários

3 Responses to “Primeiros parágrafos”

  1. Francisco on Maio 18th, 2011 18:42

    Olá!
    Estou quase sempre atendo ao que publica no seu blog e às suas opiniões, mas desta vez confundi-me!
    A forma de escrever deste senhor é de um peso “imedível”, pois seria impossível ler mais que dois parágrafos. Seguramente, que ao tentar ler um livro assim me daria um nó no estômago de tamanha feijoada. Os feijões, segundo dizem, devem ficar a demolhar umas boas horas, quiçá dias, antes de os por pôr na panela.
    Será isto o que chamam de escrita criativa, ou trata-se de um catálogo de todas as expressões possível para explicar uma simples ideia?
    Abraço

  2. José Mário Silva on Maio 19th, 2011 11:40

    É apenas prosa da melhor, Francisco, um domínio da língua portuguesa que é uma maravilha. Experimente ler mais, experimente ler melhor, e concordará comigo.

  3. ana palhares on Maio 20th, 2011 11:11

    Em resposta ao Francisco, digo que nos livros é como em tudo na vida: temos que investir algum esforço para nos tornarmos verdadeiros apreciadores. A escrita de Mário de Carvalho não é fast food, mas é, do ponto de vista da forma, uma verdadeira delícia. Experimente “a arte de morrer longe”, “fantasia para dois coronéis e uma piscina” ou “a sala magenta”. é impossível não se apreciar o que este senhor faz com a lingua portuguesa.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges