Primeiros parágrafos

«Já lhe falei da história do homem-zebra?
Quer ouvir? Conto-lha tal como Marcos Sacatepequez a escreveu.
Ou, para ser mais exacto, como Oscar Schidinski diz que ele a escreveu.
É assim:
Polvorosa é um pueblo semelhante a tantos outros deste país de bananeiras e matas de cacau. Consiste apenas numa rua poeirenta, perpendicular à estrada de terra que vem de Insolación e segue para o Norte. De um lado e do outro dessa rua desamparada estão alinhados quinze ou vinte edifícios de madeira, decrépitos quase todos, desbotados e consumidos pela canícula. Há uma venda na qual, de modo irregular, se podem comprar alguns produtos essenciais: velas e querosene, carne seca, arroz e feijão, aguardente de cana, pregos, alguma roupa e sabão. Pouco mais. À direita de quem chega, a meio da fileira de edifícios, fica uma casa menos precária do que as outras, em alvenaria, caiada, com dois pisos e uma varanda assente em pilaretes de ferro forjado. É a residência dos Fuentes. Os Fuentes foram os primeiros colonos desta parte do país e são os proprietários de todas as coisas que aqui vivem e estão imóveis, incluindo as pessoas que, de algum modo, não estão ligadas à família por algum tipo de parentesco. Para lá dos limites da área construída existe um pequeno rio e, depois, estão os campos dos cacaueiros, os quais constituem, ainda assim, a única fonte de rendimentos do pueblo. Polvorosa seria, pois, um sítio sem nada que valesse a pena ser visto ou contado, se não houvesse aqui um homem diferente de todos os outros homens conhecidos. Chamam-lhe o homem-zebra — e é um indivíduo tão extraordinário que, se o pueblo não estivesse tão longe de tudo, tão perdido no mundo, já teria, decerto, vindo gente de outros lados, bacharéis e cientistas, médicos e curiosos por aberrações, apenas para poderem vê-lo e confirmar que existe, e que é exactamente como vai ser dito.»

[in Uma Mentira Mil Vezes Repetida, de Manuel Jorge Marmelo, Quetzal, 2011]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges