Primeiros parágrafos

«Por entre os véus oscilantes que lhe povoavam o sono, Silvestre começou a ouvir rumores de loiça mexida e quase juraria que transluziam claridades pelas malhas largas dos véus. Ia aborrecer-se, mas percebeu, de repente, que estava acordando. Piscou os olhos repetidas vezes, bocejou e ficou imóvel, enquanto sentia o sono afastar-se devagar. Com um movimento rápido, sentou-se na cama. Espreguiçou-se, fazendo estalar rijamente as articulações dos braços. Por baixo da camisola, os músculos do dorso rolaram e estremeceram. Tinha o tronco forte, os braços grossos e duros, as omoplatas revestidas de músculos encordoados. Precisava desses músculos para o seu ofício de sapateiro. As mãos, tinha-as como petrificadas, a pele das palmas tão espessa que podia passar-se nela, sem sangrar, uma agulha enfiada.»

[in Claraboia, de José Saramago, escrito em 1953 e editado pela Caminho em 2011]



Comentários

2 Responses to “Primeiros parágrafos”

  1. Olinda on Outubro 23rd, 2011 19:13

    Que dizer deste livro de Saramago? Era para não ser publicado segundo a sua vontade, logo, não deveria ser lido, respeitando nós a sua vontade já que os herdeiros não tiveram isso em conta…

  2. Maria Manuel on Outubro 24th, 2011 15:30

    agradeço a partilha, já vi a capa numa vitrina; não sabia que Saramago não desejava que o livro fosse publicado…
    (estou a lembrar Pessoa e Kafka – ficaríamos mais pobres sem os seus livros, mas também penso que, declarando o autor que não deseja publicação, essa vontade deve ser respeitada)

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges