Primeiros parágrafos

«Estava a descer as escadas de um prédio de cinco andares um pouco mais para leste da cidade; acabara de fazer uma visita à minha irmã mais velha e não fora uma visita agradável, pois ela tinha demasiados problemas, grande parte deles imaginários, o que não contribuía de modo algum para melhorar a sua situação. Eu nunca nutri especial afecto por ela, ela nunca me teve a estima que devia. Decidi fazer-lhe uma visita porque um dos seus problemas era bastante real: a minha irmã tinha caído e partido o fémur esquerdo.
Saí de casa dela com um misto de sentimentos contraditórios: por um lado, feliz por me escapar dali; por outro, irritado porque a minha irmã me tinha feito prometer que voltaria no dia seguinte.
Como referi, estava a descer as escadas e, exactamente entre o terceiro e o segundo andar, dei com um homem de alguma idade sentado a meio de um dos degraus, impedindo-me de passar. Tinha colocado um grande saco de compras entre ele e o corrimão, e, como prefiro não descer as escadas sem ter onde me agarrar, parei atrás dele. Dava a impressão de que não me tinha ouvido chegar, por isso passados alguns instantes disse-lhe eu:
– Posso ajudá-lo com alguma coisa?
Como não respondeu nem se virou, pensei que talvez fosse surdo ou, quando muito, duro de ouvido, pelo que repeti a pergunta, desta vez mais alto.
– Não, obrigado, não me parece.
Fiquei espantado, não pelo que respondeu, mas pela sua voz, que me soou familiar; era absolutamente característica, ao mesmo tempo grave e aguda, e muito expressiva. E contrastava de forma extraordinária com o aspecto gasto, quase esfarrapado das suas roupas.
Como a sua voz me levou a crer que o conhecia, e por isso que ele me conhecia a mim, sucumbi a um capricho de vaidade. Não lhe quis pedir que mudasse o saco de sítio, revelando assim como me tornara débil, de modo que larguei o corrimão e passei pelo outro lado. Correu bem, mas quando voltei a agarrar-me ao corrimão e me virei para ele, descobri que me equivocara. Nunca tinha visto aquele homem.»

[in Uma Vasta e Deserta Paisagem, de Kjell Askildsen, tradução de Mário Semião, Ahab, 2011]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges