Primeiros parágrafos

«Mal Rassul ergueu o machado para o abater na cabeça da velha, a história de Crime e Castigo passa-lhe pela cabeça. Fulmina-o. Os seus braços estremecem, as suas pernas vacilam. E o machado escapa-se-lhe das mãos. Racha o crânio da mulher, penetra-o. Sem soltar um grito, a velha cai no tapete vermelho e negro. O seu véu, decorado com motivos de flores de macieira, flutua no ar antes de cair em cima do seu corpo flácido e rechonchudo. É agitada por espasmos. Mais um sopro, talvez dois. Os seus olhos arregalados fixam Rassul, de pé no meio da sala, respiração cortada, mais lívido do que um cadáver. Ele treme, o seu patu a cai-lhe dos ombros salientes. O seu olhar assustado absorve-se no jorro de sangue que, brotando do crânio da velha, se confunde com o vermelho do tapete, cobrindo os seus traçados negros, escorrendo depois, lentamente, para a mão carnuda dela, que segura um maço de notas. O dinheiro ficará manchado de sangue.»

[in Maldito Seja Dostoiévski, de Atiq Rahimi, trad. de Carlos Correia Monteiro de Oliveira, Teodolito, 2011]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges