Primeiros parágrafos

«O tempo passou. O caso arrastou-se para o esquecimento, até um dia. Encontraram-no pendurado pelos pés, descalços, no galho de uma árvore velha. A boca estava amordaçada, com crostas de sangue, anónimo. Tinham-lhe dado um tiro. A agonia estava escrita no chão.
Ninguém quis descer o corpo. Os vizinhos calaram-se. O silêncio era consensual. Alguém de fora tinha feito aquilo. Confiavam no tempo para apodrecer a razão.
Vieram moscas varejeiras e aves de rapina. Seguidas pelos lobos e as raposas, apoiadas nas patas de trás. As formigas procuraram-no atordoadas pelo cheiro. Garantiu-lhes a sobrevivência, pouco a curiosidade.
À noite, os vizinhos trancavam as portas e tapavam os ouvidos e vendavam os olhos. O caso recortava-se na loucura. Ninguém dormia, ninguém falava. Era o estandarte das armas indesejadas, desfraldado numa árvore velha. Descalço.
E começou o exílio. E a suspeita, entre os que ficavam.»

[in A Mulher Descalça, de Jorge Fallorca, edição do autor, 2011]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges